post

A Vigilante do Futuro é Péssimo Filme Mesmo

Há uma má fama que ronda os live actions: os atores devem atuar mal, fazendo caras exageradas (como se elas fossem compostas de linhas simples de desenho) e movimentos desconjuntados (como se alguém estivesse tentando economizar poses, ou os braços estivessem colados no tronco); os planos devem ser construídos tal qual um estudante de cinema quando seu trabalho de conclusão de curso envolve zumbis; o conteúdo interessante deve ser mastigado e depois regurgitado em forma de senso comum e banalidade. Os motivos para que boa parte da cinematografia justifique isso me são desconhecidos. O problema não seria a dificuldade com cenários e efeitos, ou a transposição de um tipo de artificialidade para uma esfera esteticamente mais realista? Por que isso seria equivalente a “destruir o roteiro, banalizar as ideias, mas manter algo da artificialidade, só que mal colocada”? Será que há algum estigma de intelectual no público que vê animes, por parte de produtores de filmes, que consideram um dever baixar o nível (como que dizendo: o nosso público é o de cinema B-)? E esses e os diretores não assistem aos originais, senão passando para frente, procurando “as boas partes”, num clima de promiscuidade? Live action como Trash como Real Garbage? E ainda ganhar em cima daquela coceira dos fãs, de ir lá e assistir, independentemente…

Enfim, pois quando as pessoas diziam assistaDeath Note, “é ridiculamente ruim”, elas, com razão, diziam também: “não assista a Ghost in the Shell: é ridiculamente ruim”. Então é isso: nem graça tem. E não é injusto comparar com Dragon Ball Evolution. Mas este último avisa no seu trailer o quão ruim será, enquanto o mesmo não acontece com A Vigilante do Amanhã. Ademais, 3 pontos que vi gente comentando por aí e que gostaria de opinar:

1. Whitewashing: absurdo achar que o filme lave de branco a população da narrativa. Primeiro porque, apesar dos pesares, a cidade apresentada, mesmo com cenas retiradas dos mangá/anime, é despersonalizada, aparecendo como um grande lugar nenhum, um “lugar asiático do futuro qualquer”, bem pastichento. E nada mais típico pra um lugar desse, do que personagens multi-culturais, equilibrados na ponta do lápis (como em Thor, HQ inclusive). Aliás, ruim mesmo seria fazer uma major nipônica: toda a caracterização como garota fofa insegura boba se transformaria em insulto, ao invés de confirmar o clima de pura bobagem (que no caso, ao menos é consistente). Não há no desenho nenhuma exigência de que a aparência de Motoko seja a de uma japonesa (ela usa corpos cyborgues comerciais, e comparações com as diferentes encarnações educam o olho).

2. Sexualização: não há a ponto de dizer que tem. Na verdade, é um filme nada sexy, inclusive, e se houve alguma promessa disso, é um novo fracasso. A animação (comparação lado a lado, acima) mostra um corpo com seios firmes e bicos seios porque é o modo de vendas de um corpo mais desejável, ainda no futuro, quando você pode escolher um corpo. No filme, é só uma pessoa bonita, quando você pode escolher a atriz. Somado a isso existe uma assepsia dos personagens que parece mais uma falta de atenção do que algo construído, mas que consegue ser um grande “e daí”. O caso com a negra deveria ser interessante, mas é arruinado pelo diálogo.

3. De fato Motoko Kusanagi morre. O assassinato simbólico é prática corrente de uma série de filmes B que acreditam que o melhor a fazer é combinar os inúmeros problemas de direção e montagem com uma lente especial ideológica: sempre haverão famílias, e as crises existenciais só acontecem porque algo no american way of life deu errado; que isso ocorra na Grécia antiga ou num Japão sci-fi pouco importa. É como Jameson dizia, que o pós-modernismo (leia-se, por hora, “filmes de Hollywood”) é o primeiro estilo global propriamente estado unidense. Rewrite World Histories as American Shit.

{Ghost in the Shell (2017), filme de 100 min, dir. Rupert Sanders, 2017, nota 1/10}

post

Star Wars 7, 3.5, 8

70.1 Talvez o que Star Wars queira dizer quando pronunciava que Darth Vader seria aquele que traria o equilíbrio à força fosse o seguinte: estamos eternamente presos num drama familiar, de pai a filho, de filha a mãe, Édipo de novo e de novo. Nada mais natural que fazer um episódio 7 como um reboot do episódio 4; existem novos atores e pequenas variações, mas a estrutura é a mesma, e se força e destino se mesclam, até a estrela da morte tem um primogênito.

70.2 Como aquele infeliz compositor que disse que antes sofria diversas influências, mas a partir de um certo momento, começou a ser a única e contínua influência de si mesmo, o ciclo Disney não precisa mais de Buck Rogers, Valerién e Laureline etc. Ele pode ser um pastiche de si mesmo. É claro, isso não impede o jeito Disney – uma guinada ao simples e ao dito “infantil”.

80.1 Como a cena incrível de um passador de roupas em plano detalhe, para abrir para uma máquina digna do Aprendiz de Feiticeiro das forças imperiais nazi, ao invés de um cargueiro espacial. Ou a fofura cândida dos habitantes da ilha Jedi. Para os que não gostam, pelo menos o lado negro da força em sua automação tosca não usa raças subservientes como empregadas. E de fato, parecem haver jogos simbólicos do tipo “nomeie esse problema”, como a deliberada masculinidade tóxica de um capitão que constantemente mainsplains e um herói branco que é amargurado porque a geração seguinte está preocupada com outras coisas, mas não consegue admitir sua fragilidade. De qualquer forma, sobre a Disney, lembremos daquele meme que diz:

2067. Dinsey finally buys Warner.
2109. Disney conquers Alpha Centauri.
2132. Humans are still excited about the new Star Wars and X-Men movies.

Ao que eu adicionaria: Carrie Fisher continua a atuar como princesa Leia, 116 anos após sua morte.

70.3 Antes de eu ter a confirmação que o sujeito era um completíssimo idiota (daqueles que acha que homens brancos não precisam saber lógica), o Molyneux publicou um curioso videocast sobre o Despertar da Força. Neste ele lê o filme como mostrando um traço ideológico feminino: a recusa do aprendizado longo e difícil, do esforço necessário às conquistas, do trabalho árduo que envolve desenvolver uma habilidade de um modo responsável. De fato, um machista paranóico (ou alguém que capitaliza em cima deles), ao ver a personagem principal desenvolver-se de modo tão abrupto, compararia o seu desempenho e o de Luke e diria que aquilo era “pura ideologia”. Mas, assim fazendo, esquece que o filme está falando aos jovens. Não apenas sobre a possibilidade do protagonismo feminino, mas de modo a incorporar a impaciência geracional adequada.

80.2 Impaciência que se desenvolve. Não apenas não é necessário treinamento, efetivamente, como as etapas da trajetória do herói são comprimidas a ponto de parecerem apenas uma obrigação formal (vide a queda no buraco, “travessia do primeiro limiar”). Nem mesmo o Sith pode esperar. É melhor já matar do que entrar num penoso processo de conversão ao lado negro. “Essa aí não tem jeito, she is Jedi material“. E o que surpreendentemente leva ao melhor diálogo, entre os portadores da força: “você sabe que os seus pais não são nada” – ao que há uma resposta que é na verdade um “ok” – impaciência até mesmo com o familismo, que comparece por influência do filme anterior. E depois, que jovem hodierno aguenta o papo de um avô pretensioso. Não há mais essas formalidades e o respeito exigido já foi posto como pura opressão: os idosos não podem mais ser assim, descuidados e desbocados.

80.3 As cenas alternadas, de uma continuidade que consegue ser falsa cinematograficamente e verdadeira em termos de roteiro são a maior inovação do filme, e talvez nunca igualadas em escala. As naves continuam com toda aquela aerodinâmica desnecessária e cheia de passageiros, mesmo que a força não comunique com eles. O cenário da sala vermelha é um achado, como bem lembrou me Paulo Dantas. Há um fetichismo ali, os samurais, o tom oitentista, meio Laibach-desenho animado, uma inserção curiosa (quando sair um mp4, podemos inserir Geburt einer Nation no fundo).

35.1 Normalmente as cenas de perseguições nas guerras nas estrelas não estão entre as melhores do cinema; há uma qualidade de videogame que torna jogar videogame muito mais efetivo nesse caso (lembro quando moleque, pilotando o Millenium num Pentium III). Há que se pensar isso também em lutas. Elas devem ter um interesse na sua espetacularidade, exagero e precisão que seja especificamente cinematográfico. Se não são apenas um primo cognitivamente ingrato, mesmo que rico. Nada entretanto, como a cena em que Vader entra em dobra hiper-espacial com sua enorme nave, caindo literalmente em cima de embarcações e caças menores dos indisciplinados da aliança. Existe algo que é monumentalmente lego, maquete, nas espaçonaves desse filme. Algo especial e notável.

35.2 E surpreendentemente, nem um deus ex machina, nenhuma nave com a chave já na ignição, pronta a ser roubada, ou poderes e oportunidades que sempre, mesmo fora da geração Z, lá na década de 70, sempre estavam presentes. Rogue é um belo roteiro, um excelente filme de ação. Como entre-história, preenche um buraco, mas a estratégia deve ser outra: um filme verdadeiramente dinâmico. E com isso, há de equilibrar na narrativa, sucessos e fracassos, medir esforços e efetivar de fato os sacrifícios.

80.4 Sacrifícios cujo sucesso possivelmente contaminou O Último Jedi. Ao mesmo tempo em que há pressa, as coisas não são fáceis, porque imediatamente são também difíceis. O arrependimento dos livros perdidos é apenas fachada. Até o mestre Yoda sabe que os tempos mudaram, que agora a informação voa (comparem com a jornada custosa mas contínua e reveladora de Avatar a Lenda de Korra e seu acontecimento similar). A pressa justifica-se aqui na iminente derrota. Só que o ciclo se repetirá, atualizado. Então, não existe último jedi, e com ele último sith e depois nenhum nada e só humanos sem pedras voando pro alto e budismo militar. O que existirá são ciclos cada vez mais acirrados de fan serviceservice cuts cada vez mais ensimesmados, até que os fans possam de fato tomar as rédeas da produção e reescrever Luke a partir de Mark Hamill. Isto porque o filme não consegue nem convencer na reescrita do personagem, nem tornar a crítica aos fãs um tema (como é feito com sucesso em Evangelion 3.3, por exemplo), mas apenas indicar como certos tipos de herói não servem mais e certas características aparecem como mal postas.

*** Por fim, fui com os primos ao cinema em Botucatu, logo antes do natal, ver O Despertar da Força. Diverti-me muito, mas depois tive sensações muito ruins, de culpa, de ressaca. Sugar crash – muito açúcar, muito a fabricação do divertido. Sei que se reassistir vou achar péssimo. Rogue One (“insubordinado um?”) foi inesperadamente bom. O Último Jedi foi chato, mas instrutivo.

{Star Wars the Force Awakens, filme de 2015, dir. J. J. Abrams, nota 5/10; Rogue One: a Star Wars Story, filme de 2016, dir. Gareth Edwards, nota 7/10; Star Wars the Last Jedi, filme de 2017, dir. Rian johnson, nota 5/10}

post

Pendular: antinomia

Um filme que soube confirmar o seu argumento: quando começava a inventar eu mesmo uma história metafórica sobre a difícil relação do casal, ela confidenciava a seu colega o conto da vespa parisitóide a botar ovos em uma aranha ou uma formiga obreira. As larvas nascem e o hospedeiro é devorado de dentro, garantindo um desenvolvimento saudável de pequenas vespinhas. Nesse sentido, o final do filme não é meramente conciliatório: aquela enorme escultura diz “para a mulher independente o homem amado continua a ser uma antinomia perigosa”.

Aos criativos resta imaginar que ambos serão finalmente elogiados quando ela der vida às esculturas dele, dançando sobre elas, movimentando e as percutindo. “Incômoda vitória do patriarcado” e “Uma defesa do natural favorece a vespa”.

Um ponto de interesse pra mim foi a familiaridade com o tipo de pessoa e ambiente caracterizado lá como o do “artista em carreira”. Mas sinceramente, não deixo de pensar o quanto a cena subterrânea e marginal tem figuras e relações mais interessantes (mas daí, claro, os problemas médios são outros).

{Pendular, filme de 1h48, direção de Júlia Murat, nota 7/10}

post

Blade Runner 2049

O que considero mais notável no segundo filme é uma tensão interna que se manifesta na contraposição de alguns elementos. É como se a narrativa tivesse de manter-se como uma continuação perfeita do mundo do filme anterior, com seus (1) retro-projetores, testes de turing, controle policial, jogos de memórias, animais caros, beijos da morte, robótica subalterna, mega empresas sinistras, futuro asiático noir, final agridoce, falhas irremissíveis, conluios secundários, nomes significativos, trilha “Vangelis”, reverbs monumentais, CEO olímpicos, ponto de vista masculino, consentimento sexual problemático (talvez isoladamente a melhor cena do filme) e incursões “Tom xereta”.

Entretanto, é também como se isso trouxesse com si a necessidade de (2) ação e perseguições, de um cenário opulento e mega-urbano e principalmente, pelo caráter de continuação e derivação da obra, uma garantia de diversão. E aí o trabalho de Villeneuve se mostra profícuo: (3.1) achar uma condução que seja o mais lenta possível, puxar para trás a velocidade das cenas, dar um jeito de monumentalizar o tempo e criar um filme que tenta ser lerdo e ao mesmo tempo adequado. É como uma educação do sentimento de tempo que aproveita-se da familiaridade com o universo e a adequação ao esperado para propor algo como um filme normal, isto é, não necessariamente divertido, mas direcionado ao imersivo e atmosférico. Aí também há uma (3.2) valorização das sombras e dos cantos, a indicar formas e posições de modo similar. A cena desnecessário e forçada do confronto final de K. e Luv é filmada contra a própria ação, como uma sequência que apenas referencia a luta, a atmosfera de luta na chuva e finalmente, a própria existência de tais confrontos em Blade Runner.

Há algumas adições: mesmo que a trilha seja exatamente apenas o necessário, os graves são impressionantes e frutos de um trabalho detalhado e preciso (talvez a coisa que mais gostei de toda a carreira de Hans Zimmer). As texturas tem um poeirento a mais, seja cinza, seja marrom: ao invés de sonhos com cidades chinesas superlotadas, chuva ácida e ocupações de prédios abandonados, sonhamos com a desertificação da lama tóxica e a vida nos despojos e escombros de parques industriais falidos. Por fim, quanto ao machismo do filme, o que posso dizer é que é necessário notar o quanto o personagem principal é o macho idiota, que se acha capaz de resolver problemas, quebrar normas individualmente e perseguir “seu destino” (deixar de ser capacho). Com essas andanças, provoca mortes e revelações não apenas perigosas, mas inteiramente indesejáveis do ponto de vista da boa condução social.

Obs: o primeiro Blade Runner não me impactou tanto, provavelmente porque, sendo novo (nascido na década de 80) minha cena predileta de caracterização de cidade do futuro já era a de Ghost in The Shell e imaginações da Sprawl de William Gibson. A relação de Deckard com Rachel era complicada pelo fato dela ter também função de prostituta no livro, o que penderia no seu papel de cortesã, e nem aqui nem ali me pareceu uma grande questão ou avanço, dentro de um paradigma macho (focado ou na conquista ou em ser atendido), de ter relações com seres cuja humanidade está a um nível a menos, seja de humano a andróide ou de andróide a IA (embora seja dito, ambos os filmes pegam leve no hábito do Phillip K. Dick de ter personagens femininos desequilibrados e traiçoeiros). Ademais, no filme não há o mercerismo nem a máquina de controle de desempenho emocional, nem o fabuloso dilema da ovelha que fazem do livro uma grande obra (me pergunto se a cena da praia em Synners de Pat Cadigan referencia de algum modo o mercerismo de Sonham os Andróides).

{Blade Runner 2049, filme de 164 min, dir. Denis Villeneuve, 2017, nota 7/10}

post

Kairo: Circuito e Solidão

Em 2001 a internet estava menos embrenhada no cotidiano; era possível pensa-la com distanciamento. Como algo que permite a comunicação através do além dos cabos e da informação, do mediado mas próximo a outro próximo. Bastava nutrir a paranóia do novo para imaginá-la como capaz de aprofundar essa relação, indo do mais interior ao mais interior, mas passando pelo radicalmente exterior. Um interior, que é o profundo da mediação, mas onde o eu vê-se aprisionado nesta, e um além que está aquém, exterior a toda possibilidade de ser meio, que como exterior interior, une todos em uma grande comunicação do ausente.

Ademais, era possível conceber seus circuitos como liberadores de uma força misteriosa que se alastra, uma tecnologia contagiosa, aparecendo como um atrator implacável. Na falta de contato, de pele, da química e um modelo de convivência suficientemente empático, não há cafezinho que garanta conexão humana e resista a essa conexão desconexa, isomorfismo entre aquisição de meios digitais e epidemia propriamente capitalista da depressão.  Quando o comportamento torna-se vicioso e cobrimos nossa cara com sacos de lixo, primeiro nos fechamos solipsisticamente para depois pedir uma ajuda que, não surpreendente, não vem.

O chamado do moden, tão característico e bizarro, rústico e precário como um presságio antigo, de um tempo remoto mas atualizado, é prenúncio de vertigem, portal para um futuro terrível e implacável. A internet se alastra, aparentemente inócua, para logo depois arrastar a cidade inteira em um movimento hesitante mas avassalador de conexão de almas solitárias: fantasmagoria inexorável. A mediação da conexão, aqui, prende-se ao motivo de uma radical desconexão – a comunicação dá-se no partilhar individual de uma fantasmagoria que pode agora manifestar-se como comum a todos – compartilhamento de solidões, comunicação de um mundo da morte, de depressão especificamente contemporânea, catalizado pela conexão mediada.

{回路, Kairo. Dir. Kiyoshi Kurosawa, 2001, not 8.5/10}

post

Pura velocidade? Redline vs Mad Max Fury Road

Será que é possível fazer um longa metragem que seja pura velocidade? Para aproximarmo-nos disso, dentro de uma estrutura narrativa: que existam motivos para correr, mas que eles sejam bastante simples, superficiais, manjados – um terreno limpo que justifique embarcarmos em uma corrida. Mas também, no meio dessa, os oponentes são apenas um meio para o esforço de estar cada vez mais veloz, um esforço que em seu ápice atinge a calma em meio ao caos: não mais vencer, ultrapassar, mas a intensidade do deslocamento: a velocidade, ou melhor – o cerne dessa – a aceleração em si. Explosões de linhas e de cores ou então a estaticidade de um momento feito imagem mágica; um instante em que só é possível a câmera lenta, como montagem especulativa de uma derivada dupla (o ponto em que há a máxima aceleração).

É verdade que Redline parece-se muito com o excelente filme das Wachowski para o clássico Speed Racer, lançado quase ao mesmo tempo (2009 e 2008, mas a animação de Katsuhito Ishii demorou 7 anos pra ficar pronta, então provavelmente foi elaborada primeiro). Mas Redline é mais econômico (há colegas, mas não família, há graça mas não personagem cômico, há amor, mas o amor do amor é a corrida), e opta por ser mais rápido, mais superficial e por reduzir temas desenvolvidos em Speed Racer ao estatuto de mera menção (o caso da máfia, as questões de legitimidade e capitalização em corridas). Assim, pode também ser mais mirabolante e estrambótico: é um anime, afinal. E assim pode fornecer uma maravilhosa cena de espírito desportivo, sem as ambiguidades que rondam o filme Hollywoodiano.

Mad Max Fury Road usa genialmente a alegoria, integrada ao tema da velocidade: é na jornada rumo ao paraíso, ao prometido, à vida melhor, ao sonho de um lugar melhor, que ocorre a duro compreensão de que desde sempre era preciso mudar onde já se estava (e então o retorno e o final à lá Édipo: <agora começa o real trabalho, aquilo a ser feito após o destino>. Ou seja, o filme traça o arco filosófico da jornada em que a utopia é o combustível necessário para a mudança, nos levando ao mais distante para então retomarmos o mais próximo. Só que esse traçado precisa da corrida e da velocidade para desenvolver-se, porque o pensamento em MM4 é sempre exterior e da ação (assim, não é um conteúdo que atrapalha o filme, mas o complementa “de dentro”).

Em relação a Mad Max, Redline pode contrapor sua ênfase na individualidade e no esforço de auto-superação contra o impessoal (o circunstancial, o acontecimento) que traz a velocidade pelo desespero, de Fury Road. Redline traz oponentes e uma velocidade atingida para si, na busca da vitória. Mad Max traz inimigos e uma velocidade imposta como condição de sobrevivência. No fundo, tanto o triunfo quanto a vida pouco importam.

{REDLINE, filme de animação de 2009, dir. Takeshi Koike, nota 9/10; Mad Max Fury Road, filme de 2015, dir. George Miller, nota 9/10}

post

Valérian e Laureline e a Cidade dos Mil Planetas

1. Incrível que ninguém conheça a bande dessinée na qual o filme se baseia. Quando criança me marcou bastante, embora eu admita não lembrar de quase nada (seria algo próximo do “Embaixador das Sombras” apesar do título do filme; de qualquer forma, mas vou conferir, parecem acertadas as caras que Laureline faz como uma patricinha linha dura ex-donzela medieval, e a canalhice (presunção e babaquice) de Valérian).

2. Os visuais estão incríveis (costume and scenery porn? yes). A caracterização do universo é maravilhosa, com os elementos que Mézières partilhava com Moebius e que inspirou Star Wars (até demais, na verdade, a ponto de dar pra dizer que a saga-pastiche de George Lucas tem em Valérian e Laureline a sua contraparte de ambientação, acrescida de um pouco de Flash Gordon e samurais à la Akira Kurosawa). Abaixo, um desenho do próprio Mézières, puxando a orelha de McQuerrie.

3. A cena de ação do mercado virtual é fabulosa e digna do que anda na imaginação coletiva (vide livro de William Gibson “Território Fantasma”, o qual inspirou minha postagem ideia para um museu). A cena rápida do “menor caminho possível” está entre as melhores cenas curtas de ação que já vi, e os dois usos da arma que cria uma plataforma temporária, incindentais no filme, são muito marcantes (isso existe na HQ? tem um nome?).

4. É certo que Besson não é capaz de jogar fora o desespero decadente de uma sociedade que quer ainda louvar o casamento como “engana que eu gosto”, mas pelo menos as cenas com a megamorfa Rihanna fornecem material, digamos, metafórico, para essa grande instituição falida.

5. Como em outros filmes do diretor, alguns diálogos explicativos e “ideias” atravancam algumas cenas. Seria melhor apenas ter uma condução enxuta (ainda mais com uma história simples). Fica devendo também uma maior verossimilhança para o episódio do chapéu branco (pq a armadura não funciona e permite Laureline fugir já de cara?).

6. É de se perguntar quantos coadjuvantes são necessários para sustentar os heróis. No final o heroísmo pode salvar o dia, mas sai caro. Vidas, habitações e equipamentos são destruídos.

{Valérian and the City of a Thousand Planets, filme de 2017, dir. Luc Besson, nota 7/10}

post

Lucy

Esperando a adaptação da HQ de Christin-Mézières, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, resolvi ver esse filme, também de Luc Besson. Fiquei aliviado que o tom pastelão, de descontração zombeteira, estava lá, e com a atuação “não é pra eu me levar a sério atuando isso”, de Johanson, cheias de risadas internas. lembra-me Bruce Willis, no Quinto Elemento – e ambos estão cheios de personagens rasos e impulsivos, pura superfície. Vendo, ocorreu-me que nos dois, as indicações científicas e filosóficas eram pura conversa pra boi dormir. Mas porque é necessário um roteiro com uma história banal, é preciso inserir elementos que possam ampliar a gama de efeitos e tipos de imagem utilizados; que cada dado amplamente superficial possa disparar imagens diversas, cortes, associar livremente figurinos e transformações visualmente exdrúxulas e garantir a manutenção do desfile flamboyant dentro da sequência de ação dos filmes. Esses elementos em Lucy são “a história das espécies”, “o uso do cérebro”, o próprio Morgan Freeman e “a história do bebê”. Há momentos entretanto, que erram a mão – os dois diálogos com o professor Norman. Quase dá tempo de pensar “que merda de argumento” ou “isso não tem relevância alguma”. O perigo desse tipo de expediente é o pensamento no espectador de “não custava ter uma ideia melhor / ser mais consequente / desenvolver mais. Existe um anti-intelectualismo que precisa ser levado mais a sério, às vezes. De qualquer forma, um filme divertido.

{Lucy, filme de 2014, dir. Luc Besson, nota 6/10}

post

Citação: They Live

 

“I’ve come here do chew bubblegum and kick ass.”
“Most of the cops are humans, but they told them we were commies.”

é um filme que mostra uma ideia tão óbvia de modo tão óbvio, que é surpreendente que o tenha feito.

{They Live, dir. John Carpenter, 1988, nota 5/10}

post

A Árvore da Vida

A pedido de um colega, tento lembrar minha apreciação desse filme e chego a dois pontos que considero importantes: um que diz sobre inovação na forma, o outro sobre conservadorismo no conteúdo.

1. É impressionante que um filme de mais de duas horas não contenha nem ao menos um plano com mais de 3 segundos, se bem me lembro. O enorme apelo sentimental das cenas reforça ainda mais esse aspecto formal: é preciso emocionar, mas sem demorar-se aqui ou ali; a iluminação e o som devem prover continuidade onde há inúmeros cortes; o todo fragmentado deve ser apreendido como trajetos-sensação, estes, por sua vez, aglutinados em uma “grande jornada”. Ademais, imagino alguma regra oculta a indicar tipos de movimentação de câmera – do tremido na mão, seguido de modo abstrato (como uma lógica paralela) a travellings muito precisos.

2. Entretanto esse observador que aglutina os fragmentos, que é afetado a ponto de armar um todo nostálgico e assim fundir as histórias – longe do que sente, do que foi feito sentir, o que ele formula? O humano, na sua relação individual com suas mesquinharias é salvo perante o cosmos ao rememorar seus momentos de vida mais profundos, de perda e felicidade. Ou seja, a paróquia é o nosso modo de unirmos ao cosmos na nossa pequenez. Que bonito, continuamos como “feitos à sua imagem”, isto é, seres banais para um Deus banalizante.

{The Tree of Life, 2011, filme, 138′, dir. Terrence Malick, nota 4/10}