arte contra a vida

1. um poema

barrar o devir
expiar a experiência
domar a loucura

arte contra a vida

2. são notórias as reclamações de bataille contra o (segundo) surrealismo, ou o “surrealismo estético”. não sei se ele teria previsto o quão rápido seria a apropriação ou o paralelismo publicitário nesta direção, produzindo um misto de arte e vida contra a vida. mas ele estava suficientemente consternado com um tipo de arte expressiva, a ponto de escrever:

se um homem começa a seguir um impulso violento, o fato de exprimi-lo significa que renuncia a segui-lo ao menos durante o tempo de expressão. A expressão exige que se substitua a paixão pelo signo exterior que a figura. Aquele que se exprime deve, portanto, passar da esfera ardente das paixões à esfera relativamente fria e sonolenta dos signos. Em presença da coisa exprimida, é preciso, portanto, sempre se perguntar se aquele que a exprime não prepara para si mesmo um profundo sono.

{georges bataille, a loucura de nietzsche, trad. fernando scheibe, editora cultura e barbárie, achephale vol. 5, p.9}

em relação à impostura de “um pesadelo que justifica roncos”, nada mais frouxo e distanciado da loucura, de tornar-se vítima de suas próprias leis. eis a potência da arte expressiva: normalizar.


postado em 24 de setembro de 2017, categoria aforismos, prosa / poesia : , , , , ,

a coleção particular

lendo o discurso preliminar sobre o acordo da fé com a razão de leibniz (em ensaios de teodiceia), ou então a origem do drama barroco alemão de walter benjamin, vemos desfilar diversas referências a autores e obras diversas, obscuras e datadas. de modo que muito dificilmente vamos consulta-las ou checar sua proveniência. no caso de benjamin, inclusive, o próprio autor alerta para essa peculiaridade: afora calderón, que está lá como contraponto (e é espanhol), quem conhecerá os objetos da pesquisa, aqui transformada em texto?

parece que, acertadamente, georges perec viu nisso uma grande potência. essa existência lateral, imaginada, a todo momento deslizando para a ficção, construindo a prática de ler sem conhecer efetivamente (porque apreendemos as posições, conceitos e conclusões, mas de onde partem é nebuloso). e nisso teve a astúcia de deslocar o tema para a área na qual a questão da autenticidade era dado maior valor: a pintura. (e é interessante imaginar como às vezes parece haver mais preocupação com a pintura do que com a pesquisa social, nesse sentido – penso nos inúmeros estudos forjados contra a renda básica universal, por exemplo, como os que aparecem no livrinho divertido de rutger breger, uma utopia para realistas).

autores como simon reynolds e david toop causam por vezes grande angústia na leitura porque, referenciando uma quantidade enorme de canções e acontecimentos musicais, evocam a necessidade de conhecer os objetos abordados. ao invés de borrões e passagens, obstáculos e opacidade. um outro exemplo desse tipo de escrita que bombardeia referências, em música, é dado por glenn watkins no seu pirâmides no louvre – um livro sobre o pós-modernismo na música, que de tão desconhecido entre as pessoas da minha área, me parecia apócrifo. até hoje me pergunto se a citação de stravisnky na minha dissertação, isto é “tudo o que me interessa, tudo o que eu amo, eu desejo fazê-lo meu”, que de lá veio, não é pura ficção. de todo modo, seria interessante verificar quais os modelos existentes que perec usou para ativar sua imaginação, como stravinsky, que como finnissy e peter wustmann, para elaborar seus corais, inspirou-se em gesualdo, compositor do qual watkins é de fato especialista.


postado em 22 de setembro de 2017, categoria livros : , , , , , , , , , , , , , , , ,

a iconoclastia / lei de fomento

entre março de 2009 e março de 2010 participei de um grupo em são paulo, que procurava articular a criação de uma lei de fomento à música, naquela mesma cidade, moldada na lei de fomento à dança, da mesma. eu e vanderlei lucentini alimentamos um blogue na época.

existe um maravilhoso conto de karel čapek, chamado a iconoclastia, em que o amante da arte procópio pede ao pintor e padre influente nicéforo que intervenha ao grande sínodo e assim ao imperador para que a arte seja salva dos iconoclastas, que gritam “morte aos idólatras” e pedem a retirada da arte dos espaços públicos. nicéforo, entretanto, parece mais interessado em que mosaicos de uma infame escola de creta, essa arte moderna e deturpada, sejam por fim destruídos.


postado em 19 de setembro de 2017, categoria comentários, resenhas : , , , , ,

sugestões para a sociedade do amanhã #1

1. já que há idade mínima para o voto eleitoral, a idade máxima para votar deveria ser 60 anos.

2. quando mais nova a média de idade do aluno, maior deveria ser o valor da hora paga para o educador, estacionando por volta dos 35. isso implicaria que os professores universitários seriam os que menos receberiam por hora para aulas.


postado em 16 de setembro de 2017, categoria proposições : , , , , ,

vida social, julho-agosto 2017

1. #pokemonparanoia

2. “o que é o alfabeto para você?”

3. #365diasdesexo

4. “tudo dá pra definir. mas definir nunca é fixar, porque a mente não é um papel.”

5. “contata improvisa vai descendo até o chão”

6. “primeiro, lavar a louça. depois comer. aí então cozinhar.”

***

* a epilepsia foto sensível é extremamente rara, mas há um prazer de colocar avisos – é como se você tivesse poder, como se pudesse realmente causar algo violento; * com matheus preto albatroz dutra e/ou – chegamos à conclusão que não concordamos; * não lembro o conteúdo real da frase da maria caram, mas me pareceu um bom projeto para um quarentão desocupado; * imagino a renata campos pensando com essa cara :s, o seguinte: “obrigado iwao, que explicação linda”; * lembrei dessa canção de 2003 esses dias – juliana frança, que talvez a tenha inventado, curtiu no face, mas duvido que pratique; * paródia de um suposto provérbio japonês contado por eizaburo, meu vô: “de manhã planeja, de tarde trabalha, de noite descansa”.


postado em 10 de setembro de 2017, categoria crônicas : , , , , , , ,

nomes #2

1. schellingians

2. schlegelians

3. schillerians


postado em 9 de setembro de 2017, categoria prosa / poesia : , ,

nomes #1

1. batman baudelaire

2. rambo rambeau (rimbaud)

3. heidegger he-man

4. heinrich justin bieber von biber


postado em 8 de setembro de 2017, categoria slogans : , , , , , , ,

encarnação do vento

numa jam de contato improvisação com crianças, todos podem ceder à tentação de carregar e girar o parceiro no ar, como encarnações do vento e da direção; o par homem carregador mulher carregada, com suas tensões de gênero, dá lugar a uma neutralidade que diz: “afinal, um é maior e o outro menor”.


postado em 4 de setembro de 2017, categoria comentários : , , , , ,

a festa de casamento

é a obra de arte total do povo.

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Die Ehe Trauung ist das Gesamtkunstwerk des Volkes.


postado em 28 de agosto de 2017, categoria aforismos : , , ,

todos os meus amigos

todos os meus amigos viraram padeiros
todos meus colegas vão de uber
e eu, que nado mal e ando de bicicleta mal
não tenho celular e não sei fazer torrada


postado em 11 de agosto de 2017, categoria prosa / poesia : , , , , , ,