o ritmo do músico na dança

é comum que alguém, vira e mexe, pergunte-se porque músicos em geral são tão desengonçados para dançar. afinal, eles não deveriam dançar bem, sabendo o ritmo? mas quem disse que ritmo era um conceito capaz de unificar fora da mente e da abstração duas práticas tão diversas quanto música e dança? (imagine que se diz de um ciclista: mas porque ele corre tão devagar, se pedala tão rápido?).


postado em 11 de julho de 2017, categoria aforismos : , , , , , ,

nocaute de bem estar

uma bomba de saúde
um ataque de calma
um míssil de empatia
nocaute de bem estar


postado em 2 de julho de 2017, categoria prosa / poesia : , ,

多芸は無芸

há um provérbio japonês que diz 多芸は無芸, literalmente “versatilidade: falta de talento/falta de realizações”. no livro a vida obscena de anton blau, maria cecília gomes dos reis exemplifica esse pensamento, escrevendo (editora 34, 2011, pag. 49-50):

Contudo, num processo discreto e nada incomum, Anton sem perceber passa do ponto em que ainda é muito cedo para se empenhar ao momento em que já não há mais o que fazer. É um mau passo muito frequente, no qual muitas vidas empacam para sempre, e vai do instante em que ainda se tem todo o tempo imediatamente ao minuto em que já estamos irremediavelmente atrasados. O garoto, além da boa compleição física e de extraordinária beleza, tem amplos recursos – curiosidade, memória, esperteza, inteligência e muita imaginação -, mas pouca precisão, escasso senso de urgência e diminuto avanço sobre as oportunidades – nunca vê na conjuntura real a ocasião ideal para lançar-se nela com tudo. Em suma, tem talento para ser o que quiser, mas em nada se empenha o suficiente. Aquilo que sobra na piscina – ímpeto e vontade de vencer – é justamente o que lhe falta no mar da vida, e, como aquelas pessoas prestes a mergulhar – “ainda não desta vez: virá uma onda melhor” -, nunca chega o momento de abraçar a circunstância que se lhe apresenta. O garoto pula então de galho em galho querendo colher apenas as flores da vida. Pratica natação até perceber que, para seguir adiante, deve redobrar o esforço e firmar a mira. E brotam nele então as novas aspirações da juventude – Anton vê longe e pensa grande.

 


postado em 30 de junho de 2017, categoria excertos : , , , , ,

o grande hipnotizador

quantas vezes os alvos do grande hipnotizador não pensaram: é melhor eu fingir estar hipnotizado e agir tal qual ele comanda; imaginem que fiasco seria, que papelão, ficar aqui e fazer algo estranho ou ainda comportar-me normalmente – o que pensariam dele, ou melhor – o que pensariam de mim? e não faltaram ocasiões em que seus amantes sonharam estar sob controle total, enquanto transavam exatamente como ele sugeria – nem performances exuberantes e inventivas, na qual os hipnotizados resolveram dar o seu melhor.


postado em 25 de junho de 2017, categoria prosa / poesia : , , , , ,

crônica util

bem, seu cartão não passa e então deve comprar passagens na hora, para chegar em BH antes das 17h30 na loja a qual seu computador encontra-se em manutenção. na noite do sábado ninguém comprou nada, então ok, mas às 7h30 da manhã da segunda já não há mais cometas, apenas um util 9h (união transporte interestadual de luxo s/a nove horas) que resolve cobrar 35% a mais pelo fato de não haver cometas.
 
é o rio de janeiro, então a passagem de volta já é 40 e tantos por cento mais cara, devido a (tarifas municipais?). serto. o ônibus é executivo, porém o que é “executivo hoje em dia, não?” podemos dizer que um convencional seja executivo, se quisermos. “podemos” (e não nos dar o trabalho de repor os copinhos de água no frigobar do translado). e no site constava a miraculosa chegada às 15h. ora(s). perfeito, só que não, porque chegou após o ônibus de mesmo horário da viação competidora. não que eu morra de amores por ela, mas tive de correr para pegar o metrô e o computador do qual escrevo agora.

postado em 19 de junho de 2017, categoria crônicas : , , , , , ,

sem controle emocional

no livro snow crash, de neal stephenson, raven tem tatuado na testa: SEM CONTROLE EMOCIONAL. é um mundo de enclaves – as regiões se fragmentam: as passagens e interconexões são todas perigosas – espécie de estado natural capitalista.

ele tem tatuado na testa porque não há um sistema prisional-legal unificado, mas é suficientemente perigoso para que alguns queiram deixar claro a outros seu desequilíbrio. raven também recebe o status de “homem-nação”, porque anda por aí com uma bomba atômica na moto.

no livro, nada impediria que uma dupla de psicopatas saísse torturando e tatuando pessoas, com justificativas de um moralismo abjeto. mas também, nada impediu o caso em são bernardo. em ambos os casos, há retaliação. TORTURADOR E TATUADOR COMPULSIVO. “seriously, don’t mess with him”.


postado em 11 de junho de 2017, categoria comentários : , , , , ,

aura

christian wolff dizia sobre tocar notas que não importava o que você fizesse, acaba soando como uma melodia. nas reviravoltas da história e nas intrigas políticas sempre queremos enxergar um plano, vislumbrar uma estratégia, e as coisas sempre acabam tendo um motivo (pense nas fases do espírito). ademais, dada uma sequência de números qualquer, um padrão é inevitável. isto é, o padrão é a forma da nossa apreensão de uma sequência. da mesma forma, não importa o quão reprodutível, despersonalizada e genérica uma obra artística seja: acaba tendo aura. essa sombra monadológica.


postado em 10 de junho de 2017, categoria aforismos : , , , , , , ,

herói

é só muito ocasionalmente as figuras do herói e do vencedor coincidem. pois são ideais que muitas vezes se opõem, como quando se diz que um tem as potências do inédito e outro as possibilidades do efetivo. quer dizer, nada decepciona tanto o adolescente em nós quanto quando um herói finalmente vence. sua batalha deveria ser eterna ou condicionada pelo desaparecimento de ambos o sujeito e a ocasião, ou ao menos por uma derrota do sujeito. o mundo é dos vencedores, mas é preciso destruir o mundo. nada pior do que alguém que deseja vencer na vida para alguém cuja frase “seja herói” já ressoou fundo no coração. derrotando o vencedor, seja ele outro ou uma tendência em si mesmo, o herói não vence mas sim exclui a possibilidade da vitória. no plano da arte contra a cultura, certamente o herói está no lado da arte.

 


postado em 4 de junho de 2017, categoria aforismos : , , , , ,

13%

é muito comum apresentarmos uma pessoa a outra falando sobre o que ela faz, ou perguntando o que ela faz. fica aí implícito “o mundo do trabalho”. quando era um jovem estudante lembro de ficar perplexo ao descobrir (ó ingenuidade) que o que uma pessoa fazia/estudava/trabalhava muitas vezes não era o mesmo que o que ela gostava. havia um certo desdém nas respostas. não havia motivação suficiente para que elas discorressem sobre assuntos relacionados e não tinham grandes planos ou desejos relacionados com as respostas.

em 2013 foi estimado que apenas uma em cada oito pessoas poderiam corresponder às minhas expectativas juvenis [*]. por isso, talvez seja melhor introduzir gostos e desejos nas apresentações pessoais,  mesmo que isso eventualmente soe brega. “o que você gosta?” “ultimamente, o que tem desejado?” “o que tem deixado você feliz?” “pelo que você se interessa?” (dando exemplos de si próprio para quebrar o gelo).


postado em 28 de maio de 2017, categoria comentários : , , , , ,

repre$$ão

nas contenções ao populacho, que tal adotarmos uma atitude liberal e armarmos a polícia militar com bombas de dinheiro? uma bomba de R$800 de cédulas de R$2 espalha rapidamente 400 notas em uma área de 100m². uma bomba do tipo disputa pode ser lançada à mão e ao cair abre como um kinder ovo, deixando rolar quatro notas de R$ 100 nos quatro pontos cardeais. um disparo de escopeta tem a vantagem de poder até mesmo cegar um vândalo ou jornalista desprecavido enquanto espalha moedas de R$1 pelo chão das principais avenidas. um morteiro de mil moedas de R$0,5  é sempre bonito de se ver, o metal mal reluzindo enquanto ricocheteia. as minas direcionáveis em notas crescentes, acionadas em retaguarda: por ela, como não peticionar junto a avaaz e pp que a casa da moeda confeccione espécies intermediárias e superiores, com a possibilidade da substituição da sequência 1, 2, 2+1, 2+2, 5, etc, 20, 20+10, …, 100, 100+10, 100+20, 100+100 pela mais pura 1, 2, 3, 4, 5…, 20, 30, …, 100, 110, 120, …, 200. por uma nota de duzentos, que manifestante não caminharia rumo às forças tarefas? e o mito de que o encontro seria coroado com uma surra de verdinhas? na operação beija-flor-de-peito-azul viu-se um grande canhão de vento cuspir inumeráveis cédulas, afastando tanto a aglomeração quanto o mito de que valor real e de face difeririam. pois é preciso colocar ordem na casa e nas coisas.


postado em 19 de maio de 2017, categoria comentários, proposições : , , , , , , , , , , ,