esportes que o infinito menos apoia com entusiasmo

(lista de 2018. foto de dorothé depeauw)


postado em 21 de maio de 2019, categoria fotografia, miscelânia : , ,

pós-CLTA, sugestões de edificações

depois que obtivermos o comunismo luxuriante totalmente automatizado, poderemos então ir ao que interessa. por isso entendo algo como erigir, no ramo da construção:

1. o ovo do smetak.
2. um lago para mergulho e explorações em profundidade aquática.
3. uma sala de contato improvisação sem atração gravitacional.
4. o castelo de ponta cabeça de garota revolucionária utena.
5. uma discoteca com túnel de vento na pista de dança.


postado em 19 de maio de 2019, categoria comentários : , , , , , ,

eles nos pagam

foi provavelmente guattari quem sugeriu que os analisandos que deveriam ser pagos, em uma consulta psicanalítica, dado que seriam eles que fariam o trabalho propriamente dito. giuliano obici, em compro auri, aplicou tal lógica aos ouvintes, pagando lhe pelas suas escutas (mas não em ouro). estes dias, quando liguei para a net, afim de assinar um plano de internet, o mesmo saia por R$140 o mês, exceto se eu também incluísse um serviço de telefone fixo. pois com tal serviço, a assinatura passaria a R$100 por mês, o que nos conduziria fatalmente à explicação: eles nos pagam.

se fizéssemos uma tabela comparativa da quantidade paga, 3 minutos por R$1, e um mês por um desconto de R$40, seriamos levados a acreditar que o marketing lucra mais que a música experimental.


postado em 10 de maio de 2019, categoria comentários : , , , , , , , ,

a incrível máquina de ei você não pode fazer isso

era meu grupo supostamente inspirado em “ground zero” e que praticaria jogos musicais, atuante entre os anos de 2005 e 2006 (com uma apresentação avulsa com outros músicos em 2008 no rio de janeiro). certamente alguns nomes de composições foram influenciados pela animação “arrume tudo e pare com isso“. que eu tenha anotado, as músicas possíveis eram:

  • afável ser
  • a única coisa importante sobre wittgenstein afora o quarto com a cadeira e a caixa de sapato
  • aviãozinho
  • calvinball 2
  • encontros e armadilhas
  • fama
  • gato mia
  • groove-groove
  • grunge-groove
  • jogo do pacto demoníaco
  • o homem com o dedo no nariz
  • o terrível mecanismo de agora-faça-tudo
  • zip-zapatismo

em um evento com streaming de pronunciamento do comandante marcos na rádio muda, unicamp, 15 de agosto d 2006.


postado em 7 de maio de 2019, categoria miscelânia : , , , ,

bruise pristine

por algum motivo, júlia percebeu que eu não sabia ao certo como um chupão ocorria e tirou a conclusão acertada de que nunca havia sofrido um. lembrei do hit juvenil do placebo. influenciado por este, imaginava pessoas a passar minutos sugando o pescoço uma das outras, até que um gentil hematoma fosse impingido. o preço do social, talvez dissesse a banda. tivesse eu atentado a isso: preço indica dor, incômodo, não apenas marca. vou te marcar, ela disse, e um triângulo roxo no início da cervical frontal indicará “território explorado por _”. mas é algo rápido, há um estalido e uma dor mais queimada, de picada. ei, doeu. e ela: agora você sabe, e sofre.

(i) o hematoma desse tipo deve ser tomado como indicação de atividade sexual com algum parceiro (?). há na atividade sexual o fantasma da posse? ter um hematoma desse tipo implica um afastamento de possíveis interações, por um pressuposto de estar maculado, de estar sob a posse de? como um namoro de sacanagem, adolescentes se marcam para evocar fantasmas de posse, de possessão, uns nos outros.

(ii) há ainda o tabu do sexual. do prazer misturado à dor. há algo de afronta naquilo que retira do privado a condição de praticante, publicizando-a em marcas, resíduos, despojos.

(iii) mas e se as marcas fossem inevitáveis? sistema sexual em que para consumar a relação é instituído um chupão: posição codificada quanto ao tipo de envolvimento. de modo menos social, devem haver seres cujos cheiros ineludíveis não permitem outra base para as relações. lembro da anedota contada por carol sudati sobre homens de barba, que não poderiam trair com sucesso uma relação amorosa com outras mulheres, os pelos retendo o odor liberado durante o coito (mas isso mesmo sem contato da cara com a vagina?). [notem: como isso diferiria do sistema “anéis de namoro / noivado / casamento”]


postado em 23 de abril de 2019, categoria comentários : , , , , , , , ,

dois sonhos, despertador

1. 8h30

acordei às 8 horas com o despertador tocando. procurei o despertador e o desliguei. estava com sono e queria reajustá-lo para às 8h30, então sonhei que o ajustava para às 8h30: apertava repetidamente os botões e o colocava de lado. às 8h04 acordei com o despertador tocando, modo soneca, e percebi ter sonhado que ajustava o despertador. no tempo curto que se seguiu, tentei certificar-me de que estava realmente ajustando o despertador para às 8h30 e acordado e não dormindo, porque se eu o estivesse ajustando dormindo, a chance de que eu pudesse estar sonhando ao invés de simplesmente sonambulando, parecia-me maior. e então se eu acordasse às 8h08, perceberia que o problema era ainda mais complexo e talvez fosse impossível de fato ajustar o despertador, por talvez não haver despertador e nem horário, mas apenas sonho, e sonho dentro de sonho, ainda por cima. talvez fosse, por exemplo, 6h45 e na minha cama houvesse apenas algum livro, digamos, “a viagem à terra das moscas”, e um travesseiro sobressaliente, além de meu lençol e o travesseiro babado. acordando às 8h29, bem a tempo de preventivamente desligar o despertador, às 8h30 levantei da cama.

2. 7h00

o relógio de nome alemão w alguma coisa, ou seria h?, toca ao meu lado, no leito. são 7h00; seu bipe, primeiro espaçado, depois insistente e finalmente incessante, acionou-se. giro meu corpo 180 graus, de modo que minha mãe diametralmente oposta agora é a mais apta a pressionar-lhe o topo, colocando-o em modo soneca e dando-me 5 minutos para sentar-me calmamente, afastar parcimoniosamente as cobertas, arrastar-me ao canto até meus pés balançarem para fora da cama, antes de tocarem o chão. mas há algo de estranho: ainda ouço o irritante sinal sonoro, agora já ritmado. então, acordo. de costas, com a mão mais próxima mesmo, a direita, desajeitadamente, mas sem mover meu tronco, realmente desativo o bicho. abro os olhos e fito o teto. minha mão tateia o equipamento e assim encontra e botão que desliga o despertador, função soneca e tudo. pensando, concluo que dormia mas despertara e cochilara, sonhara e finalmente redespertara.

 

 


postado em 2 de abril de 2019, categoria sonhos : , , ,

sexo, drogas e rock’n’roll

ao contrário da prática habitual, o slogan diz: primeiro o coito, porque estamos descansados e cheios de energia e disposição, portanto atentos, ou porque estamos despertando, carinhosos, gradativamente construindo a disponibilidade cuidadosa e recíproca. depois as drogas, para relaxar e abrir as percepções para si mesmo, ou para acordar e eletrizar. só após isso o rock’n’roll, o encontro gregário, o barulho que nos envolve em um estar junto, onde o coletivo rege o individual.

assim, não à toa, nas drogas, rock’n’roll e sexo, chega-se por último ao começo, funde-se ou contagia-se com a massa, e ou há uma preocupação que nos agarra ao pessoal, uma ansiedade na qual o mais importante vem por último, que nos retira do momento, ou então, o encontro íntimo é um resto, uma sobra espontânea, de mera pura acessibilidade, superação do cansaço e esquecimento do ser.


postado em 1 de março de 2019, categoria aforismos, slogans : , , ,

resquiescat in pace, rufo

como me falta aquela empatia que me tornaria susceptível de enfrentar a morte com calamidade ou tristeza, restam me os pequenos momentos de melancolia, das situações habituais contrariadas. não que a morte em si não seja insólita. o recolhimento e a recusa à alimentação, o resultado que torna a espera e a inação distantes e incongruentes, o endurecimento do corpo, o som das varejeiras que o rondam, o seu peso tornado puramente físico, sem tônus, sem resistência a favor ou contra. tudo isso conta para como que uma suspensão da experiência na experiência. mas daí, justamente, não há propriamente sentimento, entendido como emoção sedimentada.

só que depois os pequenos acontecimentos acumulam: chegar em casa e não ter ninguém a esperar, ou então andar no corredor e não vê-lo deitado ao lado, preguiçosamente; então, não chamá-lo para que siga vagarosamente, com o excesso de prudência característico. devo segurar o olhar, retesar o dedo que estalaria, engolir o nome não proferido. a estranheza de abrir e fechar as portinholas da varanda, na falta da necessidade de demarcar e impedir. a bacia seca que nunca dará mosquitos, os pombos que não visitam a ração não comida que não mais há, e a raiva que deles eu tinha, em mim ameaçando mas tão logo dissolvendo-se ao não achar objeto. a súbita lacuna e a desistência de ler na rede, sem ele a rondar, em sua perturbação indecisa; o chão vazio, limpo, sem esperneios bizarros, interessantes; os lugares mais frescos, deixados aos tatus bola. sobretudo o silêncio noturno, a ausência de roncos, o sono desacompanhado, a escuta a procurar o ritmo ressonante e só encontrar desconfiança, a imaginar seres que preencheriam sua falta.


postado em 15 de fevereiro de 2019, categoria crônicas : , , , , ,

histórias do undo

era um bebe que nasceu falando. os cérebros das pessoas acharam aquilo tão absurdo que imediatamente converteram aquela fala bem articulada (significados) em ruídos e balbúcios sem sentido.

o dia ia começando cada vez mais tarde. um pouquinho aqui, um segundinho ali. o objetivo do dia era virar noite sem que ninguém percebesse, invertendo. a noite o acompanhava, indulgente. para ela não importava. continuaria tudo o mais 12 por 12.

em um determinado dia, finalmente O EVENTO: tudo o que era azul passara a ser verde e tudo o que era verde passara a ser azul. então, nada de verdul ou azerde. as pessoas, entretanto, agora chamavam as cores por nomes trocados.

como a mente e o corpo são distinta e claramente separadas, então essencialmente díspares, um corpo de homem em uma cena, sua dome a torturá-lo, SSC etc, sofria, enquanto sua união com a mente jubilava, e sua mente pensava na falta de necessidade ontológica para a existência da palavra de segurança.

era uma estrela negra, a black star, non shining, sem brilhar, não brilhando naquela noite noturna, em toda a sua ominosa sombrietude. no céu, pontos luminosos. mas não ela.

kim jong-un estava primeiro a olhar coisas. depois passou a não-olhá-las. passou a se chamar kim jong, mas apenas secretamente.

ao se tornar imperador supremo, seria lhe outorgado finalmente o selo mental que dizia: agora, desde agora, a partir e então, todos os seus pensamentos são e serão seus, de você.

antes do undo as vores eram vores e depois do undo.

***

(essa série, apesar das datas das postagens, é de dez 2012, jan 2013. vide)

 


postado em 5 de fevereiro de 2019, categoria prosa / poesia : , , , , , , , , , , , ,

vizinhos de são paulo, anos atrás

1. paravam o carro na frente de sua casa. um dia, basta! pegou uma marreta e marretou o carro da vez.  “esse nunca mais para aqui”.

2. como sua tia era sapatona e ele perturbado pelo diabo, de tempos em tempos via sua casa como morada do demônio. era bombado e cocainômano e esmurrava o portão, gritando. em algum ponto seu pai começava a resmungar, em um paulistano carregado, “que é que eu fiz pra merecer isso”. a polícia vinha. a família desistia de prestar queixa. a polícia ia embora. o sujeito acalmava. tudo voltava ao normal. mas era preciso desentortar o portão.

3. a casa tinha um muro à lá índia, 4 metros de altura. acima dele, cerca elétrica. do alto, câmeras de segurança observavam os transeuntes. a empregada, entretanto, possuía a chave, os roubou e nunca mais apareceu.

4. era um sábado especial e estávamos fazendo mais barulho que o habitual. mas pararíamos às 23h. então, contravenção pouca, passaríamos apenas uma hora das dez. só que de repente, já no último show, há uma senhora de óculos e pijamas de pé na sala, com cara de indignada e procurando algo. achando, a vizinha segue até a tomada que tem mais coisas ligadas e puxa a extensão, desligando todo o som.

5. havia um mandato policial contra a posse de animais de estimação por parte dela. ainda assim, a tentação era grande, as ruas repletas, e ela não resistia e acumulava cachorros. o gradual aumento do coro de latidos nos indicava como ia a matilha.

6. a infiltração nos anexos estava brava. subimos na escada. o vizinho havia colocado uma estaca, deslocando o rufo entre os muros. preso à estaca havia um fio, para estender roupas. de lá víamos o lixo acumulado do restaurante japonês. talvez nossos ratos fossem lá comer. provavelmente.


postado em 3 de fevereiro de 2019, categoria crônicas : , , , ,