o tamanho dos seres

intelectualmente, não teríamos grandes questões éticas se seres alienígenas muito grandes invadissem a terra e começassem a indiscriminadamente matar os pequeninos humanos e a limpar terreno, varrendo construções e cidades inteiras. não deixaríamos de protestar, reclamar, vociferar e desesperar. mas como muito bem colocou william blake: “o verme cortado perdoa o arado”.


postado em 17 de novembro de 2017, categoria aforismos : , , , , , ,

uma série de dilúvios

há uma certa impaciência no deus da bíblia, ao desistir dos dilúvios. noé bêbado e de pau à mostra certamente é um indício de que o procedimento não garante um recomeço redentor. mas o deus da bíblia parece ler mais: testei um procedimento e sei que ele não funciona. nada do homem que sonha estar sozinho numa ilha. é preciso tentar outra coisa, ou então desistir da criação da mulher, ou seja, desistir de integrar o animal ao homem, ao mesmo tempo que oferecer a inteligência e essa conquista feminina, a ciência.

o deus da bíblia optará então por postergar eternamente o recomeço ou então, o que é ler de outra forma, recomeçar a todo momento. jesus já estará entre nós ou jesus há de voltar, sempre e sempre, eternamente. no torah há um deus prático. mas o deus da bíblia não quer ser prático, já cansou de experimentar ou o que parece o mesmo: crê saber que de nada adianta. e por isso é tão ineficiente.


postado em 12 de novembro de 2017, categoria comentários : , , , , , ,

os cortes nas artes em tempos de crise

parece que uma vez identificado que se está “em tempos de crise”, há uma corrida institucional para cortar certos tipos de financiamentos. em geral, esses cortes não parecem ser planejados de acordo com uma racionalidade econômica efetiva ou de acordo com um plano social coerente. em uma batalha por verbas, é muitas vezes verdade que o elo mais fraco perde, e que aqueles que perdem tendem cada vez a perder mais. mas me ocorreu que os cortes nas áreas artísticas e de cultura, áreas cujos orçamentos já são reduzidos e que em instâncias não impactam de modo relevante na soma total das contas, possa ter também outro tipo de significação. pois não terá esse tipo de corte, que se espalha de modo quase-epidêmico, um valor simbólico e uma efetividade especial no âmbito do enxugamento dos orçamentos?

penso que os gestores podem ter percebido que, ao cortar no financiamento artístico, cortam muito pouco em termos de montante, mas com isso já geram comoções cujo tamanho e visibilidade são suficientes para que a ação tenha valido a pena – com um mínimo de alteração efetiva, provocam um máximo de sensação de ação. como se os protestos e as acusações que seguem pudessem servir de bode expiatório para o fato de que não se corta de maneira racional nem segundo uma lógica de bem estar social, mas muito menos de uma maneira que lide com os problemas orçamentários reais. e a dupla valoração da arte a isso contribui da seguinte forma: seu valor humanista é muito grande – ela motiva defesas acalouradas; entretanto seu valor mercadológico é muito pequeno, de modo que eventos e iniciativas inteiras podem vir a extinguir-se em meio a falta de continuidade de aporte. seu valor total é sempre incerto, a oscilar entre um alto valor ideal, entre o estético e o ético, e um valor real baixo, de uma vontade de investimento baixa e efetividade duvidosa.


postado em 2 de novembro de 2017, categoria comentários : , , , , , ,

trabalhador é cão: depoimento

como era dia das crianças e einstein é pura molecagem, recebi e usei sua máscara. na parte da frente, uma língua à mostra. atrás, fortuitamente, um depoimento sobre o tempo: “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”. a tragédia pois, é ilusória (dizia simone weil, apud collor: “todas as tragédias que se podem imaginar, reduzem-se, a uma mesma e única tragédia: o transcorrer do tempo”). eu tinha uma camiseta da palestina na bolsa, bem intifada, comprada no al janiah, estabelecimento que possui o melhor doce de pistache do mundo; coloquei-a, uma espingarda da qual brotava a árvore da paz, com um dito que creio ser “o que foi tomado à força, será retomado à força”. de qualquer forma, o cargo da presidência de israel seria pró-forma, e o velho físico o recusou. sentado, com sono, pesquei algumas vezes. terminado o trabalho, 1 hora depois, percebi como as posições das obras na instalação eram coerentes entre si. liberado, agachei-me em uma posição incômoda, subalterna e na verdade, humilhante, para enfiar minha cabeça no buraco presidencial. o próximo trabalhador já estava lá, com um surreal tênis branco, acompanhado de um óculos de realidade virtual, daqueles em que se acoplam celulares.

tudo isso foi no oi futuro flamengo, festival multiplicidade 2025. participei como contratado na instalação do grupo manifestação pacífica. somaram-se à hora sentado na cadeira as 20 horas necessárias para editar os votos da câmara dos deputados quando do impeachment. pelas minhas 21 horas de trabalho, recebi r$89,46, o pior montante por hora da minha vida. a causa era nobre, diziam: ganhar o mesmo honorário que um indivíduo que ao final de um mês, recebe o seu mínimo.


postado em 15 de outubro de 2017, categoria crônicas : , , , , , , , , , , , , , , , ,

quanto ao excesso de sentido da vida

1. a arte reduz/fixa
2. a ciência desloca/elimina
3. a filosofia circunscreve/delimita


postado em 1 de outubro de 2017, categoria aforismos, prosa / poesia : , , , , ,

provérbios japoneses

1. se a xícara queima sua mão, o chá queima sua língua.

2. de manhã, planeje. de tarde, trabalhe. de noite, descanse.

3. não importa o quê: depois de 10 anos, você sente que começa a entender.


postado em 28 de setembro de 2017, categoria aforismos : , , , ,

arte contra a vida

1. um poema

barrar o devir
expiar a experiência
domar a loucura

arte contra a vida

2. são notórias as reclamações de bataille contra o (segundo) surrealismo, ou o “surrealismo estético”. não sei se ele teria previsto o quão rápido seria a apropriação ou o paralelismo publicitário nesta direção, produzindo um misto de arte e vida contra a vida. mas ele estava suficientemente consternado com um tipo de arte expressiva, a ponto de escrever:

se um homem começa a seguir um impulso violento, o fato de exprimi-lo significa que renuncia a segui-lo ao menos durante o tempo de expressão. A expressão exige que se substitua a paixão pelo signo exterior que a figura. Aquele que se exprime deve, portanto, passar da esfera ardente das paixões à esfera relativamente fria e sonolenta dos signos. Em presença da coisa exprimida, é preciso, portanto, sempre se perguntar se aquele que a exprime não prepara para si mesmo um profundo sono.

{georges bataille, a loucura de nietzsche, trad. fernando scheibe, editora cultura e barbárie, achephale vol. 5, p.9}

em relação à impostura de “um pesadelo que justifica roncos”, nada mais frouxo e distanciado da loucura, de tornar-se vítima de suas próprias leis. eis a potência da arte expressiva: normalizar.


postado em 24 de setembro de 2017, categoria aforismos, prosa / poesia : , , , , ,

a coleção particular

lendo o discurso preliminar sobre o acordo da fé com a razão de leibniz (em ensaios de teodiceia), ou então a origem do drama barroco alemão de walter benjamin, vemos desfilar diversas referências a autores e obras diversas, obscuras e datadas. de modo que muito dificilmente vamos consulta-las ou checar sua proveniência. no caso de benjamin, inclusive, o próprio autor alerta para essa peculiaridade: afora calderón, que está lá como contraponto (e é espanhol), quem conhecerá os objetos da pesquisa, aqui transformada em texto?

parece que, acertadamente, georges perec viu nisso uma grande potência. essa existência lateral, imaginada, a todo momento deslizando para a ficção, construindo a prática de ler sem conhecer efetivamente (porque apreendemos as posições, conceitos e conclusões, mas de onde partem é nebuloso). e nisso teve a astúcia de deslocar o tema para a área na qual a questão da autenticidade era dado maior valor: a pintura. (e é interessante imaginar como às vezes parece haver mais preocupação com a pintura do que com a pesquisa social, nesse sentido – penso nos inúmeros estudos forjados contra a renda básica universal, por exemplo, como os que aparecem no livrinho divertido de rutger breger, uma utopia para realistas).

autores como simon reynolds e david toop causam por vezes grande angústia na leitura porque, referenciando uma quantidade enorme de canções e acontecimentos musicais, evocam a necessidade de conhecer os objetos abordados. ao invés de borrões e passagens, obstáculos e opacidade. um outro exemplo desse tipo de escrita que bombardeia referências, em música, é dado por glenn watkins no seu pirâmides no louvre – um livro sobre o pós-modernismo na música, que de tão desconhecido entre as pessoas da minha área, me parecia apócrifo. até hoje me pergunto se a citação de stravisnky na minha dissertação, isto é “tudo o que me interessa, tudo o que eu amo, eu desejo fazê-lo meu”, que de lá veio, não é pura ficção. de todo modo, seria interessante verificar quais os modelos existentes que perec usou para ativar sua imaginação, como stravinsky, que como finnissy e peter wustmann, para elaborar seus corais, inspirou-se em gesualdo, compositor do qual watkins é de fato especialista.


postado em 22 de setembro de 2017, categoria livros : , , , , , , , , , , , , , , , ,

a iconoclastia / lei de fomento

entre março de 2009 e março de 2010 participei de um grupo em são paulo, que procurava articular a criação de uma lei de fomento à música, naquela mesma cidade, moldada na lei de fomento à dança, da mesma. eu e vanderlei lucentini alimentamos um blogue na época.

existe um maravilhoso conto de karel čapek, chamado a iconoclastia, em que o amante da arte procópio pede ao pintor e padre influente nicéforo que intervenha ao grande sínodo e assim ao imperador para que a arte seja salva dos iconoclastas, que gritam “morte aos idólatras” e pedem a retirada da arte dos espaços públicos. nicéforo, entretanto, parece mais interessado em que mosaicos de uma infame escola de creta, essa arte moderna e deturpada, sejam por fim destruídos.


postado em 19 de setembro de 2017, categoria comentários, resenhas : , , , , ,

sugestões para a sociedade do amanhã #1

1. já que há idade mínima para o voto eleitoral, a idade máxima para votar deveria ser 60 anos.

2. quando mais nova a média de idade do aluno, maior deveria ser o valor da hora paga para o educador, estacionando por volta dos 35. isso implicaria que os professores universitários seriam os que menos receberiam por hora para aulas.


postado em 16 de setembro de 2017, categoria proposições : , , , , ,