bienal para todos?

obviamente o título do blog escrito por um anônimo é uma provocação. a princípio eu não ia responder nada. ainda acho que o tom de reclamação e de reivindicação das postagens em nada realizava de fato uma reflexão crítica acerca da bienal e do cenário da música contemporânea no brasil. uma troca de mensagens com paulo rios filho, no entanto, me motivou.

desde que a bienal virou um concurso não enviei mais propostas. isso talvez seja ingênuo de minha parte, mas apenas porque se trata de uma oportunidade de ganhar dinheiro fazendo pouco trabalho. explico melhor: participei em 2007 com uma peça composta em 2004. depois virou um concurso. alguns colegas, descontentes, ainda assim disseram: manda-se algo que ainda não foi estreado – porque há muita composição sendo feita pra gaveta. talvez um monte de dinheiro seja pago por ela e ela seja finalmente estreada (com esse dinheiro coisas diversas podem ser feitas, desde usar parcialmente para promover ações musicais, como para comprar equipamentos, como para poder dizer, quando do recebimento simbólico do prêmio: “vou gastar em uísque”).

como isso não funcionou muito bem, porque ou não haviam peças para gaveta prontas ou ainda porque as peças assim mandadas não ganharam nas categorias do concurso, alguns mudaram o discurso para: compõem-se uma peça no estilo “música contemporânea da bienal brasileira”, afim de ganhar alguma grana (é como um investimento de risco). isso parece ter gerado resultados melhores, mas é bastante insatisfatório como “oportunidade de trabalho”.

os pontos abaixo são os que foram postados por mim no blogue, e foram respondidos lá por paulo rios filho e valério fiel da costa (anexo as respostas abaixo).

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1. se a bienal tivesse de fato o objetivo de representar a música contemporânea brasileira.
1.1 então deveria contemplar as iniciativas que estivessem de fato fazendo música contemporânea no brasil, iniciativas normalmente pequenas e localizadas, mas que buscam fomentar a música contemporânea, que buscam produzir concertos e eventos regulares.
1.2 isso conduziria para que a bienal se preocupasse com iniciativas de fato atuantes.
1.3 isso conduziria naturalmente para que a diversidade de abordagens fosse um critério.
1.4 os compositores que estão iniciando procurariam se inserir numa cena viva de produção musical, ou criar uma, a fim de viver fazendo música, e a bienal os contemplaria na medida em que estivessem fazendo música: tocando, organizando concertos, criando obras, fazendo contra-regragem, técnica, etc.

2. pra que serve um concurso? pra um ou outro ganhar enquanto muitos outros trabalham de graça.
2.1 dado que não temos grupos tocando coisas por aí (exceções, mab, camerata aberta, sensembow, abstrai, etc alguns intérpretes, percussionistas), mas ainda assim muito pouco, quem não é aceito na bienal acaba escrevendo para a gaveta.
2.2 um concurso não é algo que fomenta uma cena de música experimental. ele é algo que dá a ilusão de que existe uma carreira de compositor, aos moldes europeus talvez, mas sem a estrutura necessária (vários concursos, esquema de bolsas interligados, grupos de música contemporânea diversos, instituições que encomendam obras aos ganhadores).
2.3 o ganhador é o grande compositor numa terra em que o grande compositor é apenas o ganhador do concurso.

3. essa história de anônimos parece reforçar os dizeres por aí de que a composição no brasil é um feudo.
3.1 isso diz que há senhores feudais.
3.2 isso diz que há represálias.
3.3 disso conclui-se que a área de atuação é muito restrita e pequena, e pode ser facilmente controlada.
3.4 ser conivente com isso é uma boa opção? ou isso e uma carreira de compositor são castelos de areia?

4. o prêmio dá dinheiro. dinheiro é importante.
4.1 a desigualdade social poderia ser combatida. isso é uma tarefa de todos, mas também governamental.
4.2 um prêmio desse tipo reflete desigualdade de oportunidades e desigualdade social (uns trabalham por nada, outros ganham um monte).

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Paulo Rios Filho22 de agosto de 2012 19:27

 

Henrique,Concordo com todos os pontos que tu apresentou. Sobretudo porque, se a Bienal merece uma discussão, esta deve acontecer muito menos focada na maneira que funciona, mas sim pelo que ela acaba representando (mais do que ela de fato é).

 

É extremamente equivocado e ingênuo assumir a Bienal como política pública para a área. Não é política pública e não pode tomar ares de uma, porque é muito pouco.

 

Portanto, não acho que devemos tomar todo o nosso tempo discutindo se os eleitos deixaram mais ou menos vagas para as categorias de um concurso que acontece de dois em dois anos.

 

Antes disso temos que discutir se é desse modelo que precisamos agora, se ele não acaba sendo uma espécie de tapa buraco elegante e historicamente justificado; se o dinheiro que realiza a bienal é todo o dinheiro que o governo teria para a música contemporânea, então que tal pensarmos em utilizá-lo em algo mais próximo de uma política pública que fomente a produção continuada e o fortalecimento de todos os setores dessa produção em vários cantos do país?

 

[Muito além disso, na verdade, está o fato de que este não é muito dinheiro. Na real, na real, poderíamos fazer a bienal e, além dela, uma série de ações pipocadas por aí que, juntas e organizadas, mirando metas a curto, médio e longo prazo, esboçariam uma política pública para essa área da música, de fato.]

 

Mas, pra começar, dá pra considerar só a verba da Bienal mesmo. Aqui em Salvador estamos, financiados pelo Governo do Estado, realizando o MAB – um projeto todo dedicado à música contemporânea, que acontece de Maio a Dezembro, com mais de setenta eventos (de concertos a palestras, seminários em composição com professores de outros estados, projeções de música eletroacústica e recitais-relâmpago em escolas públicas com obras de estudantes de composição).

 

Com a verba destinada pela Funarte ao prêmio, mais quatro projetos como este (que ainda não acontece de um forma ideal, mas acontece), com uma programação que dura todo o ano.

 

Nesse sentido, todo o item 1 apresentado por Henrique apresenta ótimas saídas. E tenho certeza que as saídas serão perseguidas pela galera da FUNARTE, se a nossa mobilização for real e não ilusória (nem anônima).

 

[ou seja, isso não pode se transformar em choro de quem não ganhou o prêmio ou a bolsa – e este perigo ilusório é muito real]

 

De qualquer forma, parabéns pela iniciativa da criação deste espaço, seja lá de quem tenha vindo, pois qualquer forma de amor vale a pena.

 

 

  • Opa, me passei de terminar uma frase, aí vai:

     

    …Com a verba destinada pela Funarte ao prêmio da Bienal, mais quatro projetos como este (que ainda não acontece de um forma ideal, mas acontece) poderiam ser realizados, com uma programação que dura todo o ano, em ligares diferentes do país.

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Concordo com Henrique Iwao:
A discussão em torno da aceitação de compositores/obras na é, sem dúvida instigante, mas infelizmente, não trata a questão que, a meu ver, é central da Bienal enquanto evento que se quer representativo para música contemporânea brasileira, que é o formato curatorial fechado baseado na avaliação em abstrato de peças anônimas.
Noções “universalmente aceitas” acabam servindo com referência para avaliar as obras e isso redunda num evento pasteurizado, apesar de tecnicamente aceitável.
Defendo, faz tempo, que a Funarte monte a Bienal do mesmo modo como se monta a Bienal de Artes de São Paulo: pesquisando quais são os grupos em atividade no país, assistindo concertos, ouvido lançamentos de CDs, coletando casos, com o objetivo de montar uma proposta consistente, de qualidade e coerente com o objetivo de divulgar aquilo que DE FATO está acontecendo na música brasileira.
Isso evitaria o comércio de “compositores de bienal” (gente que só aparece por causa do prêmio ou escreve algo completamente diferente do que está acostumado por causa deste), ajudaria a trazer à tona compositores que se dedicam a gêneros incompatíveis com o critério do solfejo/metiér (por terem resolvido investir em improvisação dirigida, por exemplo), estimularia os compositores a investir na performance de suas obras e, com isso, a Bienal seria um evento muito mais interessante, representativo e curioso.
Não acho ruim, por outro lado, constar nos programas peças de compositores hors-concours uma vez que estas (estes) fazem parte da própria história do evento.
O anonimato gera dúvida: os critérios, para serem considerados justos, tem que ser objetivos. Se a pesquisa fosse critério, por outro lado, bastaria demonstrar o volume da produção de determinado compositor nos últimos dois anos para justificar o interesse da Bienal em que este conste na sua programação.
A curadoria vai continuar sendo conservadora? Provavelmente, mas vai ser obrigada a refletir a respeito da realidade do país, mais do que preocupar-se em “corrigir exercícios de compositores jovens pretendentes a Bienal”.

 


postado em 28 de agosto de 2012, categoria comentários : , , ,
  1. henrique iwao disse às 0:00 em 30 de novembro de -0001:

    Valéria Bonafé escreveu no facebook: Viu, em 2009 tb ainda não era concurso. A peça não tinha que ser inédita e nem pagava nada. Isso começou só na última bienal, em 2011. Abçs!isso quer dizer então que as duas etapas descritas (fazer uma peça para a bienal e uma peça para no estilo de música de bienal) provavelmente coincidiram.também, provavelmente significa que já em 2009 eu estava reticente quanto ao evento, muito provavelmente por em 2007 ter achado a qualidade de alguns concertos péssima.