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Sexo e Morte em Devilman Crybaby

Há no demoníaco uma mistura interessante de erotismo e violência, em que o sexo seduz rumo à morte. No seu livro “O Erotismo”, Georges Bataille diz:

A sexualidade e a morte são apenas os momentos agudos de uma festa que a natureza celebra com a multidão inesgotável dos seres; uma e outra têm o sentido do desperdício ilimitado a que a natureza procede contrariando o desejo de durar, que é próprio a cada ser.

O autor fala da reprodução como aquilo que estende o aniquilamento, pois a morte de uma geração exige uma geração nova, a dar continuidade a esse impulso. Mas o homem teria além do impulso, o erotismo, isto é, uma forma de aprovar a vida, quando ela circunda-se de morte. Para Bataille, isso relaciona-se com o fato de por sermos descontínuos, individuados, e conscientes, individualizados, termos uma nostalgia de uma continuidade perdida. Mas essa continuidade se daria apenas na morte [estar com todos e tudo na morte].

O erotismo coloca em questão nosso ser, mas só aponta para a morte como uma direção, como um atrator e portanto, como um ponto inatingível. Afinal, na morte, justamente, não estamos em vida. Nos perdemos demais; lá é o limite do possível. Essa tendência erótica é entretanto, controlada. A vida social introduz uma subordinação ao trabalho e à preocupação com a manutenção de certas ordens, mantendo o erotismo como transgressão – isto é, possibilidades de desarranjo momentâneo e localizado, em certos aspectos sociais da vivência.

Mas e o demoníaco? “O movimento carnal é singularmente estranho à vida humana”. De modo que “aquele que se abandona a esse movimento não é mais humano, é, à maneira das feras, uma cega violência, que se reduz ao desencadeamento, que goza por ser cega e por ter esquecido”, diz Bataille (pg. 130). E então aí as barreiras colocadas em volta da sexualidade são rompidas violentamente, e a morte passa de direção distante a uma espécie de buraco negro vertiginoso, sugando e dissolvendo a vida.

Uma violência tão divinamente violenta eleva a vítima acima de um mundo chato, onde os homens levam sua vida calculada. Em relação a essa vida calculada, a morte e a violência deliram, não podendo se deter diante do respeito, da lei, que ordenam socialmente a vida humana. (pg. 106)

Surge então o domínio da obscenidade: perturbação ou desordem dos corpos quanto à possessão de si; dissolução de suas individualidades para dar lugar a um turbilhão de impulsos tumultuados. Lembremos da cena da boate: já há um ambiente hedonista, um estado de maior confusão, com drogas, com uma sugestão de uma negação parcial do individual (é escuro, as pessoas aparecem em sombras, há uma certa equivalência no clima de pegação, em que todos desindividualizam uns aos outros). Mas isso segue na beleza do inalcançável, em algo controlado, prestes a desligar e normalizar (nas conversas, na de que há uma hora de ir embora), e que se coloca, mesmo na orgia, decepcionantemente longe dos limites do contínuo. Exceto se o demoníaco intervém. E ele surge com uma transgressão diabólica, isto é, já inumana: Ryou cortando loucamente as pessoas com uma garrafa.

E então começa a escapar para dentro da vida social, aqui e ali, fragmentos obscenos – nas formas demoníacas da violência extrema e sexualidade exagerada, mas também tingindo as frustrações da vida do trabalho com um tom erótico. Isso é impressionante no latido masturbatório de Miko, onde há uma certa possessão e delírio, mas que por ausência de uma intervenção direta do demoníaco, fica restrito a um aspecto não resolvido da interação social.

Mas então e o Devilman, que tem o coração de homem? Ele canalizou para o trabalho e a manutenção da vida toda a energia tumultuosa que tinha. De modo que, após alguns episódios, sublima seu tesão contínuo em amor, e seus impulsos desenfreados em ódio aos maus demônios. E após isso, ocorre uma virada na série, em que o erotismo visual some e de repente a sexualidade é algo já resolvido ou plenamente subordinado. Nesse ponto, ao menos pra mim, decai e deixa de ser incrível.

O ponto de virada se dá quando a Miko endemoniada é ameaçada e estuprada por um transeunte. Ali, o sexo aparece como algo meramente animal, sem erotismo algum. A morte, que coroa a cena e os ronda, tornou-se próxima demais. Não é um sonho prazeroso, um desejo estranho, ou um delírio assustador mas envolvente. É só uma coisa. E então, a tenção sexual que tingia os personagens e os demônios entre si é abandonada. Isso já foi resolvido no primeiro arco, talvez tenha pensado Yuasa: agora, para conduzir a história com mais clareza, é preciso focar na guerra e na tragédia.

Mas por que a guerra? É certo que o diabo promove o caos generalizado através da capitalização do medo. E essa energia explosiva é então conduzida como violência gratuita. Como os humanos caem em loucura angustiada, uma vez que vêem-se envoltos em assassinatos e conspirações, eles se organizam para manter alguma ordem e tarefas que remetam a organizações – a guerra é um trabalho. Não basta querer afirmar desesperadamente sua identidade contra o medo da dissolução do demoníaco (agora sem o elemento sedutor do erótico, abandonado e de toda forma incompreendido pela maioria); não basta tentar massacrar a possibilidade de que existam esses outros. É preciso organizar essa paranóia (eu não sou demônio, mas e você?), de modo a reduzir os danos, evitar o desvario (mesmo já estando louco). Nesse sentido, a guerra é já a única vitória possível. Não há mais ganho algum na morte, mas se for possível ao menos calcular as perdas, algo está salvo. Justifica-se o jubilo na crueldade e selvageria com uma medida – a defesa da humanidade, e com o auto-engano (eu sei o que estou fazendo, afinal há um propósito).

É interessante lembrar que o diabo não é um demônio mas um anjo. E na sua assepsia ele parece contaminar os demônios. Essa contaminação é o que justifica como é afoito, pois sem isso, existiria nos demônios algo de incongruente. Eles são levados rapidamente ao frenesi do sexo e da morte. Dessa forma, rapidamente se extinguiriam, não tendo impulsos de manutenção de forma de vida, que normalmente colocam a violência subordinada ao trabalho e a sexualidade à reprodução. Conservavam-se como espíritos, comportando-se como vírus, a espera de hospedeiros. Mas não se vê um hospedeiro dar origem a vários demônios na série. Eles deveriam rapidamente desencadear sua própria extinção, deixando Ryou sozinho, não fosse o clima de guerra, com sua placidez libidinal. E só assim consigo entender que Deus intervenha de alguma forma, sem parecer por pura pressa.

O cenário então acaba sendo dominado pela morte, que é a morte humana, dissociada do sexo, e que se contrapõe à irmandade das pessoas, com sua paranóia. O demoníaco, anti-familista, não está mais lá. Mas há uma boa excessão. O filho Taro, sucumbindo à sua transformação, não podendo ainda desenvolver sua violência e suas genitais, por ser uma criança, vira uma grande boca, que suga sua própria mãe, devorando-a. O pai assiste chocado, talvez na única cena obscena de dissolução do segundo arco.

{“O Erotismo”, Georges Bataille. Trad. Fernando Scheibe. Ed. Autêntica, Belo Horizonte, 2013}

{DEVILMAN Crybaby, série animada de 10 episódios de 25 min., dir. Masaaki Yuasa a partir do mangá de Go Nagai, 2018, recomendação 7/10}

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Berserk (1997): Resumo

Ao assistir a adaptação de Berserk de 1997, fiquei fascinado pelas prévias (予告, “yokoku”) ao final de cada episódio. Pareceu-me que lá, juntando os fragmentos, a história inteira era recontada em um resumo trágico, destilado. Então, resolvi, afim de testar essa percepção, montar o vídeo coletando todos os trechos. Segue.

{剣風伝奇ベルセルク, animação de 25 min., 25 episódios, dir. Naohito Takahashi, baseado na obra de Kentarou Miura, 1997-8, recomendação: 7/10}

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Patema Invertida Invertido

Para quem já viu Patema Invertida, sabe que o jogo de ponto de vistas do longa se dá numa inversão do vertical. Por isso surgiu a curiosidade de reassistir com o filme invertido, tomando o ponto de vista contrário ao escolhido pelo diretor, mas sempre presente em uma das visões de mundo / eixos de gravitação das duas comunidades. Acredito que essa inversão vale mais do que qualquer comentário que eu possa fazer sobre.

Um porém: não consegui as legendas. Se alguém tiver deixe um comentário com o contato, que eu insiro no youtube.

{サカサマのパテマ, longa de animação de 100 min., dir. Yasuhiro Yoshiura, 2013, nota 6/10)

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Assassino de Ninjas da Animação: Goroawase

No episódio 8 de Ninja Slayer From Animation o narrador comenta sobre a senha da fábrica: “era uma senha terrível que simbolizava a conexão entre Yoroshisan e a Yakuza de Soukai”. Como outras piadas do anime, está tem dois sentidos: primeiro, exteriormente, trata-se de um goroawase, (語呂合わせ) um jogo de palavras com números.

4=四=よん=yon; 6=六=ろく=roku; 4=四=し=shi; 3=三=さん=san; 8=八つ=やっつ=yattsu;9=九=く=ku; 3=三=さ(ん)=”ざ”=za.

4643893 = yo(n)ro(ku)shisan ya(ttsu)ku”za”(n) = Yoroshisan Yakusa.

Mas também, não deixa de ser um 親父ギアグ, uma piada de tiozão; e não entender como ela é fria – 寒い, isto é, sem graça, é o que a série implica ao usar a caracterização “osorubeki” (恐るべき), que é tanto “terrível”, “incrível” quanto “deplorável”. Assim, cumpre a premissa de ser engraçada sendo sem graça, em um sentido estereotipicamente japonês.

 

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Megazone 23

No primeiro filme da tetralogia Megazone 23, de 1984/5, a personagem Takanaka Yui canta a bola: “nós estamos vivendo no melhor período possível da humanidade, isso não é maravilhoso?” Os anos 80 do Japão não são apenas o ベビーブーム世代 (“geração baby boom”), mas uma época imaginária de um capitalismo glorioso, com estrelas pop cujo artificialismo elegante enfeitiça todos, gangues de motoqueiros selvagens rasgando as ruas, intrigas envolvendo homens de terno e óculos escuros, consumo tão excessivo quanto o poder aquisitivo. E mais: gatas sexy que dançam jazz envolvidas em jogos perigosos de cortejo com garotões sedutores revoltados; videogames arrojados e robôs-mechas de última geração que, coincidentemente, tem o mesmo sistema de navegação.

Mas já nessa visão que os anos 80 tem de si mesmo um sentimento de paranóia assola: e se tudo isso for uma ilusão? E se tivermos vivendo sob o signo do falso? Não vemos de onde extraímos nossa riqueza e prosperidade, somos alienados quanto a mais valia e a ecologia. Estamos em uma bolha cuja sustentação é aparente, mas cuja sustentabilidade pode muito bem ser impossível. E então intervêm algo similar ao mito da caverna de Platão, na República: há aqueles que cruzam os limites e descobrem o real. Mas Platão encarou sua história como uma nota de rodapé e não deu muito importância ao fato de que, provavelmente, tratava-se de uma excelente caverna, muito boa de se viver. Pois uma vez descoberta uma realidade outra, mais real, o que fazer? Certamente, arranjar confusão. Mas e se já for tarde demais e precisarmos de mais do que aventuras e incursões vacilantes e perigosas?

De fato, a cidade cresce sozinha, empurrando seus tubos para debaixo do tapete, isto é, para fora do seu perímetro. Aqui o marginal e o periférico apenas constróem a diferença necessária para apreciarmos a boa vida no capitalismo como o bem e o privilégio que ela deve ser. É o que é expulso, que se alastra lentamente e fora, o que não está sendo computado, que traça a oposição estrutural. Por isso a relação com o espaço sideral e sua infinitude: se for possível viver uma mentira, ao menos que ela tenha de estabelecer limites para si, por enfrentar o vazio diretamente, não permitindo uma expansão tão fácil da predação. Mas no espaço há inimigos, e a tensão com eles trará uma tensão interna: haverá uma casta militar; mas também, qualquer mentira tem seus dissidentes e precisa de uma elite e seus homens de preto atuando continuamente.

{メガゾーン23, 4 filmes de 1 hora, dir. Noboru Ishiguro (I, 1985); Ichiro Itano (II, 1986); Shinji Aramaki (III e IV, 1989); nota 7.5}

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Kaiba e a Desigualdade

Antes do arco final, em que há a resolução da história, “Hipocampo” (Kaiba) conseguiu me deprimir. Porque, ao contrastar, em um primeiro momento, um estilo de animação e condução narrativa leve e simples, com um mundo dominado pela brutalidade, conseguiu tematizar o que é chamado por aí de naturalização da desigualdade. E isso mesmo quando há um grupo revolucionário agindo: afinal, nada mais natural do que um grupo revolucionário, em um mundo podre; mas que ele seja também podre e seus quadros superiores corruptos, é inevitável. Pessoalmente, não gosto dessa expressão natural (pois não acho que ela deva ser usada associada ao significado de “imutável”e “fixo”), então sugiro chamar isso simplesmente de afirmação da desigualdade. De modo que a desigualdade é tornada um dado positivo, não porque seja boa ou desejável, mas porque é indesejável mas, fazer o que, a parte ruim a qual devemos conviver no mundo.

Estamos em busca do prazer, certo? E nessa busca, centrada em uma cegueira individualista, amplificada pela possibilidade de evitar a morte (transferindo as memórias de um corpo a outro), faz com que os habitantes “só possam ser felizes se estiverem acima uns dos outros”. As formas arredondadas, de poucos traços, não realistas, simples e de ar retrô – notadamente tezukense (Astro Boy, Phoenix), contribuem para contrastar com as tragédias que seguem, porque parecem dar um tom de inevitabilidade a estas. Um mundo mais plano, menos complexo, tem padrões mais simples também. As pessoas são guiadas por individualismo muitas vezes irresponsável. Disso resulta um mundo bastante desigual. O desejo cresce e provoca tragédias. Mas de todo modo, mesmo procurando canalizar o desejo, as tragédias continuam acontecendo.

Como aquela que resulta na morte por explosão de uma mulher que, para poder passar a viagem transando, copia sua memória no corpo de Warp, fazendo a memória desse habitar um corpo desengonçado, jogado ilegalmente no vagão de carga. Mas, oh Freud, duplicar a personalidade sempre leva a cópia a tentar matar o original. E que o método seja o orgasmo fatal une em si o desejo de poder, em sua relação com o sexo e a morte (o original como pai e mãe da cópia).

Em outro local corpos descartados são processados e viram comidas fofas, que são dadas de graça, enquanto no subterrâneo inúmeras cápsulas de memória/personalidade/volição são empilhadas como pedaços de esperança improvável, sem receptáculos possíveis.

O grandalhão Vanilla, com sua idiotia de amor, “um padrão típico de alguém rumo à corrupção”, desviando-o caoticamente de todos os seus deveres, afundando o em problemas que ele aceita como um coitado, que chora de aceitação. Por que “as lágrimas não param?”. Elas são o indício não de que há algo errado, mas de que essa tristeza que vêm à tona sempre faz parte.

{カイバ, anime, 12 episódios de 24 minutos, dir/rot por Masaaki Yuasa, 2007, nota 7/10}

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A Vigilante do Futuro é Péssimo Filme Mesmo

Há uma má fama que ronda os live actions: os atores devem atuar mal, fazendo caras exageradas (como se elas fossem compostas de linhas simples de desenho) e movimentos desconjuntados (como se alguém estivesse tentando economizar poses, ou os braços estivessem colados no tronco); os planos devem ser construídos tal qual um estudante de cinema quando seu trabalho de conclusão de curso envolve zumbis; o conteúdo interessante deve ser mastigado e depois regurgitado em forma de senso comum e banalidade. Os motivos para que boa parte da cinematografia justifique isso me são desconhecidos. O problema não seria a dificuldade com cenários e efeitos, ou a transposição de um tipo de artificialidade para uma esfera esteticamente mais realista? Por que isso seria equivalente a “destruir o roteiro, banalizar as ideias, mas manter algo da artificialidade, só que mal colocada”? Será que há algum estigma de intelectual no público que vê animes, por parte de produtores de filmes, que consideram um dever baixar o nível (como que dizendo: o nosso público é o de cinema B-)? E esses e os diretores não assistem aos originais, senão passando para frente, procurando “as boas partes”, num clima de promiscuidade? Live action como Trash como Real Garbage? E ainda ganhar em cima daquela coceira dos fãs, de ir lá e assistir, independentemente…

Enfim, pois quando as pessoas diziam assistaDeath Note, “é ridiculamente ruim”, elas, com razão, diziam também: “não assista a Ghost in the Shell: é ridiculamente ruim”. Então é isso: nem graça tem. E não é injusto comparar com Dragon Ball Evolution. Mas este último avisa no seu trailer o quão ruim será, enquanto o mesmo não acontece com A Vigilante do Amanhã. Ademais, 3 pontos que vi gente comentando por aí e que gostaria de opinar:

1. Whitewashing: absurdo achar que o filme lave de branco a população da narrativa. Primeiro porque, apesar dos pesares, a cidade apresentada, mesmo com cenas retiradas dos mangá/anime, é despersonalizada, aparecendo como um grande lugar nenhum, um “lugar asiático do futuro qualquer”, bem pastichento. E nada mais típico pra um lugar desse, do que personagens multi-culturais, equilibrados na ponta do lápis (como em Thor, HQ inclusive). Aliás, ruim mesmo seria fazer uma major nipônica: toda a caracterização como garota fofa insegura boba se transformaria em insulto, ao invés de confirmar o clima de pura bobagem (que no caso, ao menos é consistente). Não há no desenho nenhuma exigência de que a aparência de Motoko seja a de uma japonesa (ela usa corpos cyborgues comerciais, e comparações com as diferentes encarnações educam o olho).

2. Sexualização: não há a ponto de dizer que tem. Na verdade, é um filme nada sexy, inclusive, e se houve alguma promessa disso, é um novo fracasso. A animação (comparação lado a lado, acima) mostra um corpo com seios firmes e bicos seios porque é o modo de vendas de um corpo mais desejável, ainda no futuro, quando você pode escolher um corpo. No filme, é só uma pessoa bonita, quando você pode escolher a atriz. Somado a isso existe uma assepsia dos personagens que parece mais uma falta de atenção do que algo construído, mas que consegue ser um grande “e daí”. O caso com a negra deveria ser interessante, mas é arruinado pelo diálogo.

3. De fato Motoko Kusanagi morre. O assassinato simbólico é prática corrente de uma série de filmes B que acreditam que o melhor a fazer é combinar os inúmeros problemas de direção e montagem com uma lente especial ideológica: sempre haverão famílias, e as crises existenciais só acontecem porque algo no american way of life deu errado; que isso ocorra na Grécia antiga ou num Japão sci-fi pouco importa. É como Jameson dizia, que o pós-modernismo (leia-se, por hora, “filmes de Hollywood”) é o primeiro estilo global propriamente estado unidense. Rewrite World Histories as American Shit.

{Ghost in the Shell (2017), filme de 100 min, dir. Rupert Sanders, 2017, nota 1/10}

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AOTY 2017

Na hora da repescagem, o que eu recomendaria que possivelmente vocês deixaram passar? Aí vão os “álbuns do ano” (leia-se: aqueles que eu acho que foram possivelmente indevidamente esquecidos/ignorados).

Grupo A: recomendações fortes; tire um tempo e pare para ouvir.

  • Boxers: demo pilé. Um som insistente e extravagante de fita k7 podre, em uma progressiva quase revelação de um texto, mas m clima de invocação demoníaca. A fita quer extrair do texto seus ritmos ruidosos e nisso insere mistério ao ambiente.
  • Gustavo Torres & J.-P. Caron: ~Ø (não​-​vazio) m​.​p​.​s​.​s​.​t​.​n​.​g​.​g​.​c​.​o​.​p​.​p​.​g.. Processo de acumulação de ruídos de dois meios – vinil e k7, a princípio reproduzidos sem conteúdo gravado.
  • Henrique Iwao: Coleções Digitais. Todos as amostras contendo um tipo de som  na trajetória de um artista, costuradas detalhadamente, como todos os vocais do Michael Jackson na sua discografia de estúdio, que não são palavras nem vocalizes melódicos. (fui eu mesmo quem fez, mas isso não é desculpa para deixar de fora)
  • Jute Gyte: Oviri. Mistura entre black metal e música de concerto contemporânea, sem deixar de ser dinâmica, fluída e empolgante. O equilíbrio entre o rápido demais e o fraseado inteligível, formando camadas separadas na velocidade mas que se conectam no todo é notável.

Grupo B: escute se a descrição te interessa ou se há tempo para.

  • Gnod: Just Say No to the Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine. Rock barulhento, com efeitos kraut e aqui e ali buscando a energia bruta que nasce do movimento interno à repetição insistente.
  • Klein: Tommy (HDB112). Um álbum que substituiu, ao meu ver, aquilo que poderia ter sido, quiçá, oferecido por um Burial. Fantasmas no/do pop.
  • Morgan Evans-Weiler: Unfinished Variations (for Jed Speare): violino solo, paciente e sensível, explorando certas notas e suas nuances.
  • Richard Dawson: Peasant. Não achei tão incrível quanto o Nothing Important, mas ainda assim um belo álbum, de melodias boas de cantar e letras meio beats. Há uma tentativa de conjugar a guitarra de cordas muito soltas e que desafinam e a voz que estoura de propósito e grita de Dawson com grupos instrumentais tocando de forma convencional.
  • Pharmakon: Contact. Aprendi a gostar e apreciar a simplicidade e beleza industrial pop dentro do power electronics.
  • The Ars Combinatoria String Quartet: Milton Babbitt String Quartets. Os quartetos de corda do Babbitt, tocados em sequência, e de modo límpido. Música no estilo música chata (mas muito bom/legal).
  • Thelmo Cristovam: Electricity/Industry. Um paredão de ruído de estática com movimento interno estável e externo bem lento. Pra ouvir com o som no máximo.
  • Yasunao Tone: AI Deviation. Aqui em (1) a construção da arbitrariedade computacional é levada ao seu máximo, porque mantém a aparência de música computacional e de uma sequência nonsense de eventos, enquanto no todo, pela insistência e manutenção da separação entre canais e dinâmicas claras, fornece também a ideia do construído, ou ao menos, de duas IAs se esforçando para serem coerentes, enquanto improvisam. Em (2) essa impressão se solidifica, mas aí, já há um sentido claro de interação, pergunta e resposta.
  • Zeitkratzer, Svetlana Spajić, Dragana Tomić & Obrad Milić: Serbian War Songs. Canções relacionadas à primeira guerra mundial, em acompanhamento orquestral saturado e/ou atmosférico mais elementos de acompanhamento tradicionais.
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Álbuns do Ano

Quando alguém fala em AOTY ou álbuns do ano, está somente dizendo: eu recomendo fortemente, durante esse período arbitrário mas ritualisticamente instituído (o ano), esses álbuns. Mas ao fazer isso, tem a ilusão de que o a ser recomendado é aquilo que realmente há de melhor, esquecendo que álbuns existem dentro de contextos, cuja inserção do estranho, do muito ruim e do medíocre são essenciais, e que estes também formam recomendações válidas, além de fornecerem o relevo necessário ao conjunto, que tornará asserções possíveis. Além disso, esquece que melhor quer dizer, além de “melhor que estes, que não menciono nem incluo, por estes motivos que não revelo”, “o que eu escutei mais”, “o que compensou certas fraquezas internas com” etc. De modo que as listas costumam ser muito decepcionantes – o melhor é quase sempre ideológico e não construído. Há um amontoado de álbuns pré-selecionados, e cada grupo é um mundo, frequentemente extravagante, e que não forma um pensamento ao qual é realmente possível responder. Então, é necessário selecionar de novo, de modo fragmentário, na esperança de que em uma lista de 100 álbuns, exista, perdido no conjunto, aquele único que você gostaria tanto de escutar, mas que as descrições não dão conta de indicar de prontidão. Mas os números das posições não dão boas indicações da probabilidade de achar algo decente (não é que o consenso seja burro sempre, mas só às vezes). Ademais, muita coisa tem cheiro de bem embalado.

Ou seja, durante as festas, não é hora de pensar, mas de achar o melhor produto. Mas tudo bem, é final de ano: hora de pesca. Mas melhor dizendo: as listas de melhores são na verdade o grande banco da repescagem.

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Star Wars 7, 3.5, 8

70.1 Talvez o que Star Wars queira dizer quando pronunciava que Darth Vader seria aquele que traria o equilíbrio à força fosse o seguinte: estamos eternamente presos num drama familiar, de pai a filho, de filha a mãe, Édipo de novo e de novo. Nada mais natural que fazer um episódio 7 como um reboot do episódio 4; existem novos atores e pequenas variações, mas a estrutura é a mesma, e se força e destino se mesclam, até a estrela da morte tem um primogênito.

70.2 Como aquele infeliz compositor que disse que antes sofria diversas influências, mas a partir de um certo momento, começou a ser a única e contínua influência de si mesmo, o ciclo Disney não precisa mais de Buck Rogers, Valerién e Laureline etc. Ele pode ser um pastiche de si mesmo. É claro, isso não impede o jeito Disney – uma guinada ao simples e ao dito “infantil”.

80.1 Como a cena incrível de um passador de roupas em plano detalhe, para abrir para uma máquina digna do Aprendiz de Feiticeiro das forças imperiais nazi, ao invés de um cargueiro espacial. Ou a fofura cândida dos habitantes da ilha Jedi. Para os que não gostam, pelo menos o lado negro da força em sua automação tosca não usa raças subservientes como empregadas. E de fato, parecem haver jogos simbólicos do tipo “nomeie esse problema”, como a deliberada masculinidade tóxica de um capitão que constantemente mainsplains e um herói branco que é amargurado porque a geração seguinte está preocupada com outras coisas, mas não consegue admitir sua fragilidade. De qualquer forma, sobre a Disney, lembremos daquele meme que diz:

2067. Dinsey finally buys Warner.
2109. Disney conquers Alpha Centauri.
2132. Humans are still excited about the new Star Wars and X-Men movies.

Ao que eu adicionaria: Carrie Fisher continua a atuar como princesa Leia, 116 anos após sua morte.

70.3 Antes de eu ter a confirmação que o sujeito era um completíssimo idiota (daqueles que acha que homens brancos não precisam saber lógica), o Molyneux publicou um curioso videocast sobre o Despertar da Força. Neste ele lê o filme como mostrando um traço ideológico feminino: a recusa do aprendizado longo e difícil, do esforço necessário às conquistas, do trabalho árduo que envolve desenvolver uma habilidade de um modo responsável. De fato, um machista paranóico (ou alguém que capitaliza em cima deles), ao ver a personagem principal desenvolver-se de modo tão abrupto, compararia o seu desempenho e o de Luke e diria que aquilo era “pura ideologia”. Mas, assim fazendo, esquece que o filme está falando aos jovens. Não apenas sobre a possibilidade do protagonismo feminino, mas de modo a incorporar a impaciência geracional adequada.

80.2 Impaciência que se desenvolve. Não apenas não é necessário treinamento, efetivamente, como as etapas da trajetória do herói são comprimidas a ponto de parecerem apenas uma obrigação formal (vide a queda no buraco, “travessia do primeiro limiar”). Nem mesmo o Sith pode esperar. É melhor já matar do que entrar num penoso processo de conversão ao lado negro. “Essa aí não tem jeito, she is Jedi material“. E o que surpreendentemente leva ao melhor diálogo, entre os portadores da força: “você sabe que os seus pais não são nada” – ao que há uma resposta que é na verdade um “ok” – impaciência até mesmo com o familismo, que comparece por influência do filme anterior. E depois, que jovem hodierno aguenta o papo de um avô pretensioso. Não há mais essas formalidades e o respeito exigido já foi posto como pura opressão: os idosos não podem mais ser assim, descuidados e desbocados.

80.3 As cenas alternadas, de uma continuidade que consegue ser falsa cinematograficamente e verdadeira em termos de roteiro são a maior inovação do filme, e talvez nunca igualadas em escala. As naves continuam com toda aquela aerodinâmica desnecessária e cheia de passageiros, mesmo que a força não comunique com eles. O cenário da sala vermelha é um achado, como bem lembrou me Paulo Dantas. Há um fetichismo ali, os samurais, o tom oitentista, meio Laibach-desenho animado, uma inserção curiosa (quando sair um mp4, podemos inserir Geburt einer Nation no fundo).

35.1 Normalmente as cenas de perseguições nas guerras nas estrelas não estão entre as melhores do cinema; há uma qualidade de videogame que torna jogar videogame muito mais efetivo nesse caso (lembro quando moleque, pilotando o Millenium num Pentium III). Há que se pensar isso também em lutas. Elas devem ter um interesse na sua espetacularidade, exagero e precisão que seja especificamente cinematográfico. Se não são apenas um primo cognitivamente ingrato, mesmo que rico. Nada entretanto, como a cena em que Vader entra em dobra hiper-espacial com sua enorme nave, caindo literalmente em cima de embarcações e caças menores dos indisciplinados da aliança. Existe algo que é monumentalmente lego, maquete, nas espaçonaves desse filme. Algo especial e notável.

35.2 E surpreendentemente, nem um deus ex machina, nenhuma nave com a chave já na ignição, pronta a ser roubada, ou poderes e oportunidades que sempre, mesmo fora da geração Z, lá na década de 70, sempre estavam presentes. Rogue é um belo roteiro, um excelente filme de ação. Como entre-história, preenche um buraco, mas a estratégia deve ser outra: um filme verdadeiramente dinâmico. E com isso, há de equilibrar na narrativa, sucessos e fracassos, medir esforços e efetivar de fato os sacrifícios.

80.4 Sacrifícios cujo sucesso possivelmente contaminou O Último Jedi. Ao mesmo tempo em que há pressa, as coisas não são fáceis, porque imediatamente são também difíceis. O arrependimento dos livros perdidos é apenas fachada. Até o mestre Yoda sabe que os tempos mudaram, que agora a informação voa (comparem com a jornada custosa mas contínua e reveladora de Avatar a Lenda de Korra e seu acontecimento similar). A pressa justifica-se aqui na iminente derrota. Só que o ciclo se repetirá, atualizado. Então, não existe último jedi, e com ele último sith e depois nenhum nada e só humanos sem pedras voando pro alto e budismo militar. O que existirá são ciclos cada vez mais acirrados de fan serviceservice cuts cada vez mais ensimesmados, até que os fans possam de fato tomar as rédeas da produção e reescrever Luke a partir de Mark Hamill. Isto porque o filme não consegue nem convencer na reescrita do personagem, nem tornar a crítica aos fãs um tema (como é feito com sucesso em Evangelion 3.3, por exemplo), mas apenas indicar como certos tipos de herói não servem mais e certas características aparecem como mal postas.

*** Por fim, fui com os primos ao cinema em Botucatu, logo antes do natal, ver O Despertar da Força. Diverti-me muito, mas depois tive sensações muito ruins, de culpa, de ressaca. Sugar crash – muito açúcar, muito a fabricação do divertido. Sei que se reassistir vou achar péssimo. Rogue One (“insubordinado um?”) foi inesperadamente bom. O Último Jedi foi chato, mas instrutivo.

{Star Wars the Force Awakens, filme de 2015, dir. J. J. Abrams, nota 5/10; Rogue One: a Star Wars Story, filme de 2016, dir. Gareth Edwards, nota 7/10; Star Wars the Last Jedi, filme de 2017, dir. Rian johnson, nota 5/10}