é comum em eletrônica algo queimar ou pifar. o que se ganha com isso? quase nada – o equipamento para de funcionar. às vezes há algum sinal – fumaça, calor, mas normalmente o que percebemos é apenas a inutilidade. não há um grande evento marcante, um acontecimento poderoso, mas apenas chateação sem espetáculo. nem a alienação funcionalista salva: quando algo quebra, apenas para. como algo sem essência própria, mas em conjunção com uma finalidade, não estava propriamente à mão e não vai, ao quebrar, revelar nada. então só deixou de ser e é preciso ressucitá-lo. e isso nos leva a considerar assistências técnicas e ciclos entendiantes de consertos parciais.
alain badiou diz em uma bela palestra sobre sua magistral versão da república de platão, que ele teria realizado uma tradução que é mais verdadeira que o original. eu completamente concordo e recomendo a todos a leitura de a república de platão recontada por alain badiou. o que me incentiva a publicar aqui a minha inédita, mas desde já vilipendiada teoria da tradução, que apesar de tudo guardo no coração.
uma tradução, se bem feita, sempre pode ser melhor que o original (versão forte: sempre é melhor que o original). isso se explica: o tradutor atualiza a linguagem, reconectando elos que teriam se desfeito no decorrer dos anos; retira-a do período histórico que, com suas limitações e pressões contextuais, mancha o texto com obscuridades. O texto, assim, torna-se mais claro e como que mais composto de palavras, e não de acenos e expressões de uma época e local perdido.
abrir um campo de possibilidades não garante acontecimento. mas há acontecimentos não-garantidos por vir. e houve.
(são ponderações feitas após organizar alguns eventos em que ninguém compareceu. bem, eu compareci. mas então deveria dançar sozinho? dançar sozinho é manter a possibilidade aberta?)
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ps: é difícil defender o acontecimento contra o evento de sucesso, mesmo porque nada impede que no evento de sucesso existam acontecimentos. uma das maneiras de não desanimar é pensar na ideia de resistência. mas o quanto resistir não é ouro de tolo? o quanto não faria parte das estratégias de auto-engano, como aquelas que envolvem considerar-mo-nos moralmente superiores?
(não tenho grandes convicções sobre nada, aqui, exceto que é preciso pensar sobre essas coisas)
[dos rascunhos, novembro de 2014; organizava jams de contato improvisação na georgette zona muda]
wittgenstein: não há solução então eu estou mais uma vez chegando a lugar nenhum.
[dos rascunhos, agosto de 2014; fico em dúvida se concordo]
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[em 2017, eu e matthias koole apresentamos algumas vezes uma versão 落語 / stand up comedy com música experimental do dito livro, mas infelizmente não há registros disponíveis, exceto essa foto]
pode ser pensada como um retirar dela o que é difuso, ambíguo, indefinido, tudo o que é devaneio e ainda não atualizado. nesse sentido o cinema pode ser a arte da morte da imaginação. comparem ler um livro e ver a adaptação filmográfica. a sensação horrível que se tem de sequestro mental quando se vê o filme primeiro. curiosidade tanatrópica quando se vê o filme depois – assassinatos, cena a cena. prazer e dor. nesse sentido, mais do que em outros, o cinema pode também ser a grande arte política.
estávamos discutindo o papel político da arte em virtude de uma banca que participei, ano passado (adorno e música de protesto) – o melhor texto que li sobre (não que tenha lido muitos) é do danto: dangerous art. fazendo um bliztkrieg noise com a flávia goa, um sujeito tentou tacar cerveja no gerador de energia à gasolina. tudo fora de cena, como convém (imaginem a confusão que foi a edição com henrique correia, no bar da rita, que começou com uma briga a socos, separada por felipe lopes, e seguiu com o próprio responsável pelo bar puxando o amplificador do henrique da tomada… – cortei a cena da porradaria, obviamente). de todo modo, no caso do evento da flávia, não sei o que aconteceria se o tal sujeito – um músico bêbado revoltado por ter sua paz perturbada por “barulho” – conseguisse. os perigos da combustão são muito diferentes daqueles da intervenção pública. mas há algo de disturbatório (pra usar uma expressão do danto) na arte que realiza um ativismo do sensível. o problema no entanto, só afeta aqueles que têm a dupla sensibilidade de entender que aquilo é de alguma forma arte e que aquilo não é como a arte deveria ser.
quanto mais peso damos ao dever-ser de uma arte, mais ela se mostra potente para rompê-lo e assim estabelecer seus perigos.
para chegar ao “tudo pode”, precisamos passar pelo “é assim que se faz”. é porque sem isso, as infinitas possibilidades se convertem em um mau infinito: qualquer coisa.
muito antes da instagramização de tudo me afastar da fotografia, artistas que evidenciavam a categoria da presença em suas performances eram, entretanto, rapidamente fragilizados por fotógrafos que, armados como aranhas, esquadrinhavam os movimentos, transfigurando o acontecimento potencial em pura possibilidade imagética. em heidegguês, gestellizavam. e não via artista algum resistir a tal canibalização, frente a um fotógrafo mergulhado em sua ânsia pelo futuro, confirmando clique a clique sua destinação. que a obra, registrada, possa perdurar. que a obra, divulgada, possa se difundir. a experiência, feita subordinar-se ao pretérito e ao porvir, encontra finalmente na presença mais uma maquiagem, um adereço.
aristóteles, na política, defende brevemente a catarse homeopática, contra seus detratores. não é apenas pelo exemplo alopático, virtuoso, que se erradica o vício e as más inclinações da alma. a música pode purificar através da imitação do medo e do entusiasmo excessivo (livro VIII.7); a representação não apenas os torna inofensivos porque não reais. ela os neutraliza.
o remédio, ao dar pequenas doses do veneno, imuniza o corpo, a longo prazo. ou é o que dizem. sobre a arte também.