2 transformadas

guêsportu: o português inverso. 1. é escrito com as palavras de trás pra frente. 2. as palavras funcionam tal como no aparato “enigma”, por substituições em pólos. 3. Aquilo que está em pólos opostos troca: mais com menos etc. 4. Aquilo que está em pólos opostos das categorias kantianas também: tempo e espaço. 5. Futuro e passado trocam de lugar.

i lingui di i: i pirtigîis lindi. 1. português substituindo todas as vogais pela vogal i. 2. acentos e ênfases são mantidos para facilitar entendimento. 3. gestualidade italiana estereotípica intervém.

[dos rascunhos, julho de 2020. agora em março de 2025, eu e carol adquirimos o qe regressem do geoges perec, um livro basicamente escrito ne lengue de e]


postado em 3 de abril de 2025, categoria proposições : , , , , ,

dispositivo pifado

é comum em eletrônica algo queimar ou pifar. o que se ganha com isso? quase nada – o equipamento para de funcionar. às vezes há algum sinal – fumaça, calor, mas normalmente o que percebemos é apenas a inutilidade. não há um grande evento marcante, um acontecimento poderoso, mas apenas chateação sem espetáculo. nem a alienação funcionalista salva: quando algo quebra, apenas para. como algo sem essência própria, mas em conjunção com uma finalidade, não estava propriamente à mão e não vai, ao quebrar, revelar nada. então só deixou de ser e é preciso ressucitá-lo. e isso nos leva a considerar assistências técnicas e ciclos entendiantes de consertos parciais.

[dos rascunhos, julho de 2017]


postado em 31 de março de 2025, categoria aforismos : , ,

teoria da tradução

alain badiou diz em uma bela palestra sobre sua magistral versão da república de platão, que ele teria realizado uma tradução que é mais verdadeira que o original. eu completamente concordo e recomendo a todos a leitura de a república de platão recontada por alain badiou. o que me incentiva a publicar aqui a minha inédita, mas desde já vilipendiada teoria da tradução, que apesar de tudo guardo no coração.

uma tradução, se bem feita, sempre pode ser melhor que o original (versão forte: sempre é melhor que o original). isso se explica: o tradutor atualiza a linguagem, reconectando elos que teriam se desfeito no decorrer dos anos; retira-a do período histórico que, com suas limitações e pressões contextuais, mancha o texto com obscuridades. O texto, assim, torna-se mais claro e como que mais composto de palavras, e não de acenos e expressões de uma época e local perdido.

[dos rascunhos, novembro de 2020]


postado em 21 de março de 2025, categoria aforismos, comentários : , , , ,

organizando jams de dança em 2013

abrir um campo de possibilidades não garante acontecimento. mas há acontecimentos não-garantidos por vir. e houve.

(são ponderações feitas após organizar alguns eventos em que ninguém compareceu. bem, eu compareci. mas então deveria dançar sozinho? dançar sozinho é manter a possibilidade aberta?)

***

ps: é difícil defender o acontecimento contra o evento de sucesso, mesmo porque nada impede que no evento de sucesso existam acontecimentos. uma das maneiras de não desanimar é pensar na ideia de resistência. mas o quanto resistir não é ouro de tolo? o quanto não faria parte das estratégias de auto-engano, como aquelas que envolvem considerar-mo-nos moralmente superiores?  

(não tenho grandes convicções sobre nada, aqui, exceto que é preciso pensar sobre essas coisas)

[dos rascunhos, novembro de 2014; organizava jams de contato improvisação na georgette zona muda]


postado em 17 de março de 2025, categoria aforismos, comentários : , , , , ,

da certeza

wittgenstein: não há solução então eu estou mais uma vez chegando a lugar nenhum.

[dos rascunhos, agosto de 2014; fico em dúvida se concordo]

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[em 2017, eu e matthias koole apresentamos algumas vezes uma versão 落語 / stand up comedy com música experimental do dito livro, mas infelizmente não há registros disponíveis, exceto essa foto]


postado em 13 de março de 2025, categoria aforismos, comentários : , , , ,

nada sobre nada

quando éramos estudantes, mário del nunzio compôs uma música para 4 caixas claras denominada “40 minutos de nada sobre nada”. lembro do título ser derivado sobre uma observação do então professor de composição da unicamp sílvio ferraz, que achamos absurda, mas deixamos passar (era algo como “tal coisa é no fundo 40 minutos de nada”, dito pejorativamente – ele tinha o hábito de palestrar continuamente nas aulas de modo a ser muito difícil de interromper e acabava faltando espaço para expressarmos discórdia). a peça tinha 8 minutos apenas e tentava ser um amontoado razoavelmente nonsense de gestos descordenados. lembro do medo de denise garcia de que a peça realmente tivesse 40 minutos (hoje em dia, após “10 anos de cena de música experimental no brasil”, essa preocupação me soa bastante despropositada).

[dos rascunhos, agosto de 2016]


postado em 28 de fevereiro de 2025, categoria crônicas : , ,

a morte da imaginação

pode ser pensada como um retirar dela o que é difuso, ambíguo, indefinido, tudo o que é devaneio e ainda não atualizado. nesse sentido o cinema pode ser a arte da morte da imaginação. comparem ler um livro e ver a adaptação filmográfica. a sensação horrível que se tem de sequestro mental quando se vê o filme primeiro. curiosidade tanatrópica quando se vê o filme depois – assassinatos, cena a cena. prazer e dor. nesse sentido, mais do que em outros, o cinema pode também ser a grande arte política.

[dos rascunhos, janeiro de 2014]


postado em 25 de fevereiro de 2025, categoria aforismos : , ,

eletracústica

uma vez, em 2008, o professor flo menezes escreveu ao e-mail do ibrasotope, reclamando que estávamos a utilizar erroneamente o termo música eletroacústica. mal sabia ele que realmente estávamos promovendo, na pequena sala de shows que tínhamos, concertos de música eletroacústica; inclusive, em formato acadêmico (vários compositores). respondemos explicando. ele pediu desculpas. estava claro que estava apenas policiando o termo, não tendo interesse nenhum em comparecer.

fui polido, apesar da indignação de alguns. nessa mesma época mário apresentou-me o álbum quadrafônico, de alceu valença e geraldo azevedo, em discussão terminológica da mesma área. usar o a e não o o era o correto, concluiu.

[dos rascunhos, setembro de 2023, resgatado de muitos anos atrás]


postado em 16 de fevereiro de 2025, categoria crônicas : , , , ,

o perigo da arte

estávamos discutindo o papel político da arte em virtude de uma banca que participei, ano passado (adorno e música de protesto) – o melhor texto que li sobre (não que tenha lido muitos) é do danto: dangerous art. fazendo um bliztkrieg noise com a flávia goa, um sujeito tentou tacar cerveja no gerador de energia à gasolina. tudo fora de cena, como convém (imaginem a confusão que foi a edição com henrique correia, no bar da rita, que começou com uma briga a socos, separada por felipe lopes, e seguiu com o próprio responsável pelo bar puxando o amplificador do henrique da tomada… – cortei a cena da porradaria, obviamente). de todo modo, no caso do evento da flávia, não sei o que aconteceria se o tal sujeito – um músico bêbado revoltado por ter sua paz perturbada por “barulho” – conseguisse. os perigos da combustão são muito diferentes daqueles da intervenção pública. mas há algo de disturbatório (pra usar uma expressão do danto) na arte que realiza um ativismo do sensível. o problema no entanto, só afeta aqueles que têm a dupla sensibilidade de entender que aquilo é de alguma forma arte e que aquilo não é como a arte deveria ser.

quanto mais peso damos ao dever-ser de uma arte, mais ela se mostra potente para rompê-lo e assim estabelecer seus perigos.


postado em 13 de fevereiro de 2025, categoria aforismos : , , , , ,

assim falou zaratustra

o livro começa de fato, como o próprio nietzsche descreveu, em ecce homo, como o maior presente já dado à humanidade. desse começo fabuloso, deslocador, provocador, instigador, no livro 1, entretanto, assistimos uma queda no livro 2 que decai ainda mais no livro 3. pouco se acrescenta, muito se retoma, e os momentos geniais vão ficando mais esparsos, uns diálogos forçados e o medo do eterno retorno, uma encenação de baixa qualidade [ao contrário do que heidegger supôs, nietzsche apenas fingiu não entender seu “pensamento dos pensamentos”, talvez por excesso de escrúpulo literário]. o livro 4 retoma o bom caminho e reinstaura a aura de genialidade ao todo. a cena do asno é maravilhosa. como um todo, quanto a assim falou zaratustra é feliz que o dispensável esteja no meio e o inesquecível nas pontas (enquanto que na música de strauss, o memorável é apenas o começo, como uma música de pura idealidade – uma vez que a ideia foi apresentada, todo o resto é preenchimento).

[dos rascunhos, outubro de 2014]


postado em 6 de fevereiro de 2025, categoria livros : , , , ,