aura

christian wolff dizia sobre tocar notas que não importava o que você fizesse, acaba soando como uma melodia. nas reviravoltas da história e nas intrigas políticas sempre queremos enxergar um plano, vislumbrar uma estratégia, e as coisas sempre acabam tendo um motivo (pense nas fases do espírito). ademais, dada uma sequência de números qualquer, um padrão é inevitável. isto é, o padrão é a forma da nossa apreensão de uma sequência. da mesma forma, não importa o quão reprodutível, despersonalizada e genérica uma obra artística seja: acaba tendo aura. essa sombra monadológica.


postado em 10 de junho de 2017, categoria aforismos : , , , , , , ,

herói

é só muito ocasionalmente as figuras do herói e do vencedor coincidem. pois são ideais que muitas vezes se opõem, como quando se diz que um tem as potências do inédito e outro as possibilidades do efetivo. quer dizer, nada decepciona tanto o adolescente em nós quanto quando um herói finalmente vence. sua batalha deveria ser eterna ou condicionada pelo desaparecimento de ambos o sujeito e a ocasião, ou ao menos por uma derrota do sujeito. o mundo é dos vencedores, mas é preciso destruir o mundo. nada pior do que alguém que deseja vencer na vida para alguém cuja frase “seja herói” já ressoou fundo no coração. derrotando o vencedor, seja ele outro ou uma tendência em si mesmo, o herói não vence mas sim exclui a possibilidade da vitória. no plano da arte contra a cultura, certamente o herói está no lado da arte.

 


postado em 4 de junho de 2017, categoria aforismos : , , , , ,

13%

é muito comum apresentarmos uma pessoa a outra falando sobre o que ela faz, ou perguntando o que ela faz. fica aí implícito “o mundo do trabalho”. quando era um jovem estudante lembro de ficar perplexo ao descobrir (ó ingenuidade) que o que uma pessoa fazia/estudava/trabalhava muitas vezes não era o mesmo que o que ela gostava. havia um certo desdém nas respostas. não havia motivação suficiente para que elas discorressem sobre assuntos relacionados e não tinham grandes planos ou desejos relacionados com as respostas.

em 2013 foi estimado que apenas uma em cada oito pessoas poderiam corresponder às minhas expectativas juvenis [*]. por isso, talvez seja melhor introduzir gostos e desejos nas apresentações pessoais,  mesmo que isso eventualmente soe brega. “o que você gosta?” “ultimamente, o que tem desejado?” “o que tem deixado você feliz?” “pelo que você se interessa?” (dando exemplos de si próprio para quebrar o gelo).


postado em 28 de maio de 2017, categoria comentários : , , , , ,

repre$$ão

nas contenções ao populacho, que tal adotarmos uma atitude liberal e armarmos a polícia militar com bombas de dinheiro? uma bomba de R$800 de cédulas de R$2 espalha rapidamente 400 notas em uma área de 100m². uma bomba do tipo disputa pode ser lançada à mão e ao cair abre como um kinder ovo, deixando rolar quatro notas de R$ 100 nos quatro pontos cardeais. um disparo de escopeta tem a vantagem de poder até mesmo cegar um vândalo ou jornalista desprecavido enquanto espalha moedas de R$1 pelo chão das principais avenidas. um morteiro de mil moedas de R$0,5  é sempre bonito de se ver, o metal mal reluzindo enquanto ricocheteia. as minas direcionáveis em notas crescentes, acionadas em retaguarda: por ela, como não peticionar junto a avaaz e pp que a casa da moeda confeccione espécies intermediárias e superiores, com a possibilidade da substituição da sequência 1, 2, 2+1, 2+2, 5, etc, 20, 20+10, …, 100, 100+10, 100+20, 100+100 pela mais pura 1, 2, 3, 4, 5…, 20, 30, …, 100, 110, 120, …, 200. por uma nota de duzentos, que manifestante não caminharia rumo às forças tarefas? e o mito de que o encontro seria coroado com uma surra de verdinhas? na operação beija-flor-de-peito-azul viu-se um grande canhão de vento cuspir inumeráveis cédulas, afastando tanto a aglomeração quanto o mito de que valor real e de face difeririam. pois é preciso colocar ordem na casa e nas coisas.


postado em 19 de maio de 2017, categoria comentários, proposições : , , , , , , , , , , ,

o tempo da composição

passei 8 anos construindo uma música. ficou melhor, mais impressionante, mais satisfatória que outras? não. é verdade que é possível que o tempo transpareça, quem sabe. mas ficar dois dias ou mais de 500 horas fazendo algo pode não estar correlacionado com quesitos de qualidade, porque esses quesitos são estabelecidos em relação à consistência própria do construído. o período de trabalho e a perseverança estabelecem paralelos, não muito mais que isso. uma vez, quando estudante, demorei 13 meses para fazer uma música eletroacústica que, após primeira audição, guardei para nunca mais tocar. então a questão seria muito mais se vale a pena fazer o tipo de música que demora meses ou anos para ser feita, sendo sua qualidade, tal como em outros tipos, incerta.


postado em 14 de maio de 2017, categoria comentários : , , , , ,

competição

a verdadeira competição é contra si mesmo? mas quem garante que o competidor não esteja competindo contra si mesmo contra o outro? (pense nas vantagens de níveis mais altos de psicopatia – no fato de que não precisam vencer o preconceito interno de que é preciso jogar limpo). e a grande sacada: se você conseguir institucionalizar algo, mas de forma que a instituição gire em torno de si, dos seus interesses – a longa vitória.


postado em 7 de maio de 2017, categoria aforismos : , , ,

negociação

com dinheiro no bolso e comida na mesa, vamos negociar: i’d prefer not.

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quantos empregos são empregos de merda? e que tipo de simetria é necessária para estabelecer uma relação de competição do ponto de vista do empregador: aqui o seu trabalho tem valor, aqui a sua vida não será medíocre etc.


postado em 4 de maio de 2017, categoria aforismos : , , , , , , , ,

des-desaceleracionismo

Embora a imagem cuidadosamente selecionada do capitalismo seja a de um dinamismo de assunção de riscos e inovação tecnológica, essa imagem de fato obscurece as fontes reais do dinamismo na economia. Desenvolvimentos como as ferrovias, a internet, a computação, vôos supersônicos, viagem espacial, satélites, farmacêuticos, softwares de reconhecimento de voz, nanotecnologia, ecrã tátil e fontes limpas de energia foram todos nutridos e guiados por estados e não corporações. Durante a época de ouro  da pesquisa e desenvolvimento do pós-guerra, dois terços da pesquisa e desenvolvimento foi financiada publicamente. E as décadas recentes viram o investimento em tecnologias de alto-risco declinar drasticamente. Com o os cortes neoliberais de despesa estatal, não é surpreendente que mudanças tecnológicas tenham diminuído após 1970. Em outras palavras, é o investimento coletivo, e não o privado, que tem sido o principal motor do desenvolvimento tecnológico. Invenções de alto-risco e novas tecnologias são muito arriscadas para o investimento privado dos capitalistas; figuras como Steve Jobs e Elon Musk maliciosamente ocultam sua dependência parasita a desenvolvimentos estatais. Da mesma forma, projetos bilhonários de larga escala são em última instância impulsionados por objetivos não-econômicos que excedem qualquer análise de custo-benefício. Projetos dessa escala e ambição são na verdade entravados por limitações de mercado, pois uma análise sóbria da sua viabilidade em termos capitalistas os revela como profundamente indesejáveis. Adicionalmente, alguns benefícios sociais (oferecidos por uma vacina contra o Ebola, por exemplo) não são buscados devido ao seu pequeno potencial lucrativo, enquanto em algumas áreas (como energia solar e carros elétricos), capitalistas são vistos ativamente impedindo o progresso, fazendo lobbies para acabar com subsídios a  energias renováveis e implementando leis para obstruir desenvolvimentos futuros. A indústria farmacêutica inteira fornece uma ilustração devastadora dos efeitos da monopolização da propriedade intelectual, enquanto a indústria da tecnologia é cada vez mais atormentada por trollagem de patentes. O capitalismo portanto atribui erroneamente as fontes de desenvolvimento tecnológico, veste a criatividade de uma camisa-de-força de acumulação de capital, restringe a imaginação social dentro dos parâmetros de análises de custo-benefício, e ainda ataca inovações anti-lucrativas. Para desencadear o avanço tecnológico, nós precisamos nos mover além capitalismo e liberar a criatividade dos seus atuais pontos de estrangulamento.

{inventing the future: postcapitalism and a world without work (inventando o futuro: pós-capitalismo e um mundo sem trabalho, verso books, 2016), nick srnicek e alex williams (tradução minha, p. 178-9)}


postado em 1 de maio de 2017, categoria citações, tradução : , , , , , ,

greve geral e arte

nos perguntamos se o artista está incluido, mesmo que apenas simbolicamente, na esfera “trabalhador”, ou se, desesperançoso e nihilista ou indiferente e elitista, ele paira ao lado ou acima desta.

supomos que certas atividades como:

  • ver espetáculos e demonstrações
  • participar de oficinas
  • ensaiar
  • preparar e planejar obras e performances
  • corrigir ações e materiais
  • fazer reuniões de coordenação

devam ser deixadas de lado nesse dia de greve geral. ou não são trabalho? na performance de um ano de 1985–1986 de tehching hsieh – “no art piece”, o trabalho feito consistia em capitalizar a difícil arte de não-trabalhar durante um ano. ao contrário dessa ação individual, os chamados de greve na arte, por the workers coalition, gustav metzker, stewart home e o gupo práxis etc apelavam especificamente à classe, mas aproximando-a de preocupações e táticas de outros setores do mundo produtivo.

o que se pede no dia 28 de abril é, entretanto, muito mais modesto: que cada um avalie sua diferença enquanto artista como plenamente irrelevante.


postado em 25 de abril de 2017, categoria comentários, proposições : , , , , , , , , ,

nove verdades e uma mentira

1. ao nascer, dormi por praticamente 2 anos. minha mãe tinha de verificar se eu estava vivo ou presente, de quando em quando. alguns anos depois, sofri de terror noturno e tive pesadelos todo dia durante 6 meses, além de sonambulismo (subia e descia as escadas correndo). meu pesadelo predileto era subir a escada em espiral de uma torre, sem nunca chegar a lugar algum.

2. aos 2 anos de idade cai de um fosse de teatro de 3 metros, batendo a orelha. as tias gostam de contar a história de como meu vô heroicamente me socorreu, saltando em seguida no abismo. o causo poderia facilmente recair sobre alguma história de como o mesmo vô perdeu um primo, ou na discussão sobre saber se ele ficava 1 hora de ponta cabeça para depois poder beber, ou se por beber, ele ficava 1 hora de ponta de cabeça para recuperar-se.

3. na quinta série comecei a escrever uma história de aventura fantástica cujo personagem principal chamava-se vrum, que seria repleta de intrigas palacianas e poderes mágicos, como uma fusão de x-men, cybercops e literatura juvenil como berenice detetive e outros de joão carlos marinho. um dos fatos marcantes na minha vida emocional foi perceber que eu não era tão talentoso ao entender que nunca a terminaria. o mesmo se deu quando comecei a escrever um concerto para piano quando da oitava série. talvez a demora para lançar as coleções digitais tenha secretamente alguma ligação com isso.

4. meu ódio por cigarro era tão grande que eu expulsava colegas dos meus pais não apenas de dentro da casa mas da parte coberta da garagem, com 8 anos. anos depois namorei uma fumante. depois descobri que diferentes linguas absorvem diferentemente diferentes cigarros, mas sem cigarro é sempre bem melhor. uma das minhas primeiras formulações da ideia de que o mundo está tão bom quanto pode ser foi devido a essa aversão (inteiramente justificada).

5. sempre tive um lado romântico (lê-se: imaturo). uma vez, arrasado, no corredor da entrada do curso de dança da unicamp, acabei enfiando um estilete na minha perna direita. apesar de ter ficado pendurado, o corte foi plenamente irrelevante. frequentei bastante esse local, mas não tive meus 3 meses de aulas de balé clássico aí. quando cursei 1 ano de moderno, holly cravell disse “let the fingers walk”. há um desenho de um telefone com esses dizeres no meu quarto, dentro de uma pasta.

6. passei anos inteiros sem derramar uma sequer lágrima. lembro de algumas das vezes que chorei, como quando na escola, ao saber que minha vô yolanda tinha falecido. a vez que mais chorei foi em 2016. tinha pego dengue, mas era um dia apenas de fadiga e rede. foi um dos melhores dias da minha vida: como finalmente poder expressar uma imensa fragilidade. estava lendo “o chamado da selva”, de jack london, um livro sobre um cão.

7. aos 13 anos fui vice-campeão da copa nescau de hokey in-line, jogando pela ponte preta no limits. uma vez sonhei que conseguia fazer um “score” no goleiro do são paulo. na final do campeonato paulista perdi a oportunidade. me contundi seriamente em um treino e com o braço enfaixado, recusei a viajar com os colegas na formatura da oitava série. passei pelo menos os próximos 20 anos com inflamações nos pulsos, e já me foi indicado que teria artrose precoce mais de uma vez. quando minha família foi à espanha, preferi ficar lendo, em casa.

8. no dia 06 de junho de 2006 mandei imprimir 666 cópias de um texto contendo 66 nomes para o diabo, usando uma impressora remota no mesmo prédio que o departamento de plasmas. como a obra consistia apenas na ação, nunca fui buscar o papel, mas fui descoberto e o diretor do instituto no qual estudava me forçou a pagar uma multa. por um erro de configuração de página, seriam R$74 pois 740 delas. aquilo era impensável, de modo que paguei apenas a quantidade correta, com 6 notas de R$10, 6 de R$1 e 6 moedas de dez centavos. colei na porta do auditório uma nota explicativa. ninguém deu muita bola, mas de alguma forma eu e mário del nunzio conseguimos convencer a nossa turma a eleger maurício florence como paraninfo. demos um cachimbo e um livro do sherlock holmes como presente. ainda me orgulho dos meus presentes.

9. eu tive uma fase rosa, tal como picasso, mas infinitamente mais sem talento. nunca tive paciência alguma para a pintura, e quando criança me recusava a sujar minhas mãos, o que poderia me explicar meu amor por glenn gould. mas já fui fanático por “all overs” (tanto quanto por william blake ou por kafka, o qual queimei todos os livros que tinha em uma fogueira, junto a vinis do miles davies). da minha coleção de 70 bichos de pelúcia, o que mais gostava era preto, mas o bicho mais importante não.

10. uma vez eu defini minha música composta como “complicada mas não complexa”. quando jogava magic the gathering meu baralho tinha basicamente a função de matar de tédio o oponente, com stasis e às vezes alguma criatura trambolhenta como taniwha. basicamente eu tinha reinventado o turbo stasis mas querendo puxar o freio de mão. entretanto, sempre detestei jogos inerentemente lentos, como war e nunca joguei xadrez bem. quando finalmente me encantei pela música, parei de jogar videogame, achando a partir dali aquilo muito entediante. esportes competitivos também perderam todo seu charme agonístico.


postado em 21 de abril de 2017, categoria crônicas : , , , , , , , , , , , ,