nove verdades e uma mentira

1. ao nascer, dormi por praticamente 2 anos. minha mãe tinha de verificar se eu estava vivo ou presente, de quando em quando. alguns anos depois, sofri de terror noturno e tive pesadelos todo dia durante 6 meses, além de sonambulismo (subia e descia as escadas correndo). meu pesadelo predileto era subir a escada em espiral de uma torre, sem nunca chegar a lugar algum.

2. aos 2 anos de idade cai de um fosse de teatro de 3 metros, batendo a orelha. as tias gostam de contar a história de como meu vô heroicamente me socorreu, saltando em seguida no abismo. o causo poderia facilmente recair sobre alguma história de como o mesmo vô perdeu um primo, ou na discussão sobre saber se ele ficava 1 hora de ponta cabeça para depois poder beber, ou se por beber, ele ficava 1 hora de ponta de cabeça para recuperar-se.

3. na quinta série comecei a escrever uma história de aventura fantástica cujo personagem principal chamava-se vrum, que seria repleta de intrigas palacianas e poderes mágicos, como uma fusão de x-men, cybercops e literatura juvenil como berenice detetive e outros de joão carlos marinho. um dos fatos marcantes na minha vida emocional foi perceber que eu não era tão talentoso ao entender que nunca a terminaria. o mesmo se deu quando comecei a escrever um concerto para piano quando da oitava série. talvez a demora para lançar as coleções digitais tenha secretamente alguma ligação com isso.

4. meu ódio por cigarro era tão grande que eu expulsava colegas dos meus pais não apenas de dentro da casa mas da parte coberta da garagem, com 8 anos. anos depois namorei uma fumante. depois descobri que diferentes linguas absorvem diferentemente diferentes cigarros, mas sem cigarro é sempre bem melhor. uma das minhas primeiras formulações da ideia de que o mundo está tão bom quanto pode ser foi devido a essa aversão (inteiramente justificada).

5. sempre tive um lado romântico (lê-se: imaturo). uma vez, arrasado, no corredor da entrada do curso de dança da unicamp, acabei enfiando um estilete na minha perna direita. apesar de ter ficado pendurado, o corte foi plenamente irrelevante. frequentei bastante esse local, mas não tive meus 3 meses de aulas de balé clássico aí. quando cursei 1 ano de moderno, holly cravell disse “let the fingers walk”. há um desenho de um telefone com esses dizeres no meu quarto, dentro de uma pasta.

6. passei anos inteiros sem derramar uma sequer lágrima. lembro de algumas das vezes que chorei, como quando na escola, ao saber que minha vô yolanda tinha falecido. a vez que mais chorei foi em 2016. tinha pego dengue, mas era um dia apenas de fadiga e rede. foi um dos melhores dias da minha vida: como finalmente poder expressar uma imensa fragilidade. estava lendo “o chamado da selva”, de jack london, um livro sobre um cão.

7. aos 13 anos fui vice-campeão da copa nescau de hokey in-line, jogando pela ponte preta no limits. uma vez sonhei que conseguia fazer um “score” no goleiro do são paulo. na final do campeonato paulista perdi a oportunidade. me contundi seriamente em um treino e com o braço enfaixado, recusei a viajar com os colegas na formatura da oitava série. passei pelo menos os próximos 20 anos com inflamações nos pulsos, e já me foi indicado que teria artrose precoce mais de uma vez. quando minha família foi à espanha, preferi ficar lendo, em casa.

8. no dia 06 de junho de 2006 mandei imprimir 666 cópias de um texto contendo 66 nomes para o diabo, usando uma impressora remota no mesmo prédio que o departamento de plasmas. como a obra consistia apenas na ação, nunca fui buscar o papel, mas fui descoberto e o diretor do instituto no qual estudava me forçou a pagar uma multa. por um erro de configuração de página, seriam R$74 pois 740 delas. aquilo era impensável, de modo que paguei apenas a quantidade correta, com 6 notas de R$10, 6 de R$1 e 6 moedas de dez centavos. colei na porta do auditório uma nota explicativa. ninguém deu muita bola, mas de alguma forma eu e mário del nunzio conseguimos convencer a nossa turma a eleger maurício florence como paraninfo. demos um cachimbo e um livro do sherlock holmes como presente. ainda me orgulho dos meus presentes.

9. eu tive uma fase rosa, tal como picasso, mas infinitamente mais sem talento. nunca tive paciência alguma para a pintura, e quando criança me recusava a sujar minhas mãos, o que poderia me explicar meu amor por glenn gould. mas já fui fanático por “all overs” (tanto quanto por william blake ou por kafka, o qual queimei todos os livros que tinha em uma fogueira, junto a vinis do miles davies). da minha coleção de 70 bichos de pelúcia, o que mais gostava era preto, mas o bicho mais importante não.

10. uma vez eu defini minha música composta como “complicada mas não complexa”. quando jogava magic the gathering meu baralho tinha basicamente a função de matar de tédio o oponente, com stasis e às vezes alguma criatura trambolhenta como taniwha. basicamente eu tinha reinventado o turbo stasis mas querendo puxar o freio de mão. entretanto, sempre detestei jogos inerentemente lentos, como war e nunca joguei xadrez bem. quando finalmente me encantei pela música, parei de jogar videogame, achando a partir dali aquilo muito entediante. esportes competitivos também perderam todo seu charme agonístico.


postado em 21 de abril de 2017, categoria crônicas : , , , , , , , , , , , ,

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