no melhor dos mundos

seguindo leibniz, cuja visão de mundo comentei nessa postagem, bruno latour, em irreduções, escreve:

3.6.3 Somente na política as pessoas estão dispostas a falar sobre “testes de força”. Os políticos são os bodes expiatórios, os cordeiros sacrificiais. Nós os ridicularizamos, desprezamos e odiamos. Nós competimos denunciando sua venalidade e incompetência, sua visão míope, seus esquemas e concessões, os seus fracassos, o seu pragmatismo ou falta de realismo, sua demagogia. Apenas em política os testes de forças são pensados como definidores da forma das coisas (1.1.4). Apenas os políticos são pensados como sendo desonestos, são tomados como a tatear no escuro.

  • É preciso ter coragem para admitir que nunca vamos fazer melhor do que um político (1.2.1). Nós contrastamos sua incompetência com a perícia dos especialistas, o rigor do erudito, a clarividência do vidente, a visão do gênio, o desinteresse do profissional, a habilidade do artesão, o bom gosto do artista, o evidente senso comum do homem comum nas ruas, o faro do índio, a destreza do vaqueiro que dispara mais rapidamente do que sua sombra, a perspectiva e o equilíbrio superior do intelectual. No entanto, ninguém faz melhor do que o político. Esses outros simplesmente têm um lugar para se esconder quando cometem seus erros. Eles podem voltar e tentar novamente. Somente o político é limitado a um único tiro, e deve atira-lo em público. Eu desafio qualquer um a fazer melhor do que isso, a pensar com mais precisão ou ver mais longe do que o congressista mais míope (2.1.0, 4.2.0).

3.6.3.1 O que nós desprezamos como “mediocridade” política é simplesmente a coleção de concessões que nós forçamos os políticos a fazerem em nosso nome.

  • Se nós desprezamos a política devemos desprezar a nós mesmos. Peguy estava errado. Ele deveria ter dito: “Tudo começa com política e, infelizmente, degenera em misticismo.

{o original francês é de 1984, e intitulado Les Microbes: guerre et paix, suivi de Irréductions. como não leio francês, traduzi do inglês, the pasteurization of france, de 1988, por sheridan e law}


postado em 11 de julho de 2015, categoria citações : , , , , , ,
  1. henrique iwao disse às 11:45 em 14 de julho de 2015:

    entendo a vontade de provocar de latour nesse trecho, especialmente quando sua metafísica diz que “tudo são testes de forças entre agentes”. entretanto, e uma das questões atuais da política é essa, o quanto o político justamente não age em público? e quem são os agentes que se atribuem o “nós” de “em nosso nome”.

  2. henrique iwao » Blog Archive » adeus 2015 disse às 14:43 em 3 de janeiro de 2016:

    […] o livro mais interessante que li de filosofia foi o de manuel delanda sobre deleuze, o primeiro – intensive science and virtual philosophy; incrível como seu texto, usando estilo e exemplos caros à tradição da filosofia analítica, faz o que nem um outro comentador consegue – desobscurecer. o livro de filosofia mais divertido que li foi o manifesto contrassexual, de beatriz preciado, com um grande sorriso anti-heideggeriano na cara, exceto em seu comentário ambíguo sobre a filosofia como modo superior de dar o cu, que eu desafiei pessoas a me explicarem e até agora nada (o enigma do transversalismo). não posso deixar de destacar a cyclonopedia, de reza negarestani, que nas trilhas hipersticionais deixadas pelo ccru, elabora uma ficção-teoria geotraumática sobre o petróleo como agente rumo a manipulação da política humana para a desertificação da terra. vale lembrar também que nick land, no final do ano passado, lançou seu opúsculo phyl undhu: abstract horror, terminator (outra resenha aqui), uma espécie de h.p. lovecraft melhorado, com uma teoria do grande filtro embutida. para não perder o costume, li também o bom a pasteurização da frança, do latour, com sua segunda parte tractati-leibniziana, irreduções. […]