trabalhador é cão: depoimento

como era dia das crianças e einstein é pura molecagem, recebi e usei sua máscara. na parte da frente, uma língua à mostra. atrás, fortuitamente, um depoimento sobre o tempo: “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”. a tragédia pois, é ilusória (dizia simone weil, apud collor: “todas as tragédias que se podem imaginar, reduzem-se, a uma mesma e única tragédia: o transcorrer do tempo”). eu tinha uma camiseta da palestina na bolsa, bem intifada, comprada no al janiah, estabelecimento que possui o melhor doce de pistache do mundo; coloquei-a, uma espingarda da qual brotava a árvore da paz, com um dito que creio ser “o que foi tomado à força, será retomado à força”. de qualquer forma, o cargo da presidência de israel seria pró-forma, e o velho físico o recusou. sentado, com sono, pesquei algumas vezes. terminado o trabalho, 1 hora depois, percebi como as posições das obras na instalação eram coerentes entre si. liberado, agachei-me em uma posição incômoda, subalterna e na verdade, humilhante, para enfiar minha cabeça no buraco presidencial. o próximo trabalhador já estava lá, com um surreal tênis branco, acompanhado de um óculos de realidade virtual, daqueles em que se acoplam celulares.

tudo isso foi no oi futuro flamengo, festival multiplicidade 2025. participei como contratado na instalação do grupo manifestação pacífica. somaram-se à hora sentado na cadeira as 20 horas necessárias para editar os votos da câmara dos deputados quando do impeachment. pelas minhas 21 horas de trabalho, recebi r$89,46, o pior montante por hora da minha vida. a causa era nobre, diziam: ganhar o mesmo honorário que um indivíduo que ao final de um mês, recebe o seu mínimo.


postado em 15 de outubro de 2017, categoria crônicas : , , , , , , , , , , , , , , , ,

provérbios japoneses

1. se a xícara queima sua mão, o chá queima sua língua.

2. de manhã, planeje. de tarde, trabalhe. de noite, descanse.

3. não importa o quê: depois de 10 anos, você sente que começa a entender.


postado em 28 de setembro de 2017, categoria aforismos : , , , ,

o tempo da composição

passei 8 anos construindo uma música. ficou melhor, mais impressionante, mais satisfatória que outras? não. é verdade que é possível que o tempo transpareça, quem sabe. mas ficar dois dias ou mais de 500 horas fazendo algo pode não estar correlacionado com quesitos de qualidade, porque esses quesitos são estabelecidos em relação à consistência própria do construído. o período de trabalho e a perseverança estabelecem paralelos, não muito mais que isso. uma vez, quando estudante, demorei 13 meses para fazer uma música eletroacústica que, após primeira audição, guardei para nunca mais tocar. então a questão seria muito mais se vale a pena fazer o tipo de música que demora meses ou anos para ser feita, sendo sua qualidade, tal como em outros tipos, incerta.


postado em 14 de maio de 2017, categoria comentários : , , , , ,

férias de artista

agora que acabaram as férias, não terei mais tempo para trabalhar.


postado em 3 de fevereiro de 2014, categoria aforismos : , , ,

demorar-se

hoje, lendo a antologia brasileira de w. h. auden, edição bilíngue comprada para presentear uma colega que não entende o inglês (companhia das letras, 2013), reencontro o poema our bias (1939).

The hour-glass whispers to the lion’s roar,
The clock-towers tell the garden’s day and night
How many errors Time has patience for,
How wrong they are in being always right.

Yet Time, however loud its chimes or deep,
However fast its falling torrent flows,
Has never put one lion off his leap
Nor shaken the assurance of a rose.

For they, it seems, care only for success:
While we choose words according to their sound
And judge a problem by its awkwardness;

And Time with us was always popular.
When have we not preferred some going round
To going straight to where we are?

há certas combinações tortuosas de coisas desconexas, uma manhã nublada, um livro, fotos do mais antigo dos colegas, sorrindo, esbelto, trabalhando e bem acompanhado, música sentimental, bom café e o poema que tanto lembra meu pai, 17 anos e 4 teses quase-feitas para chegar a ser doutor.


postado em 9 de outubro de 2013, categoria comentários, prosa / poesia : , , , ,

ainda sobre os feitiches relacionados a viagens no tempo

alguns devem ter-se perguntado seriamente sobre porque não há grandes feitiches da viagem no tempo quando se vai ao futuro. para todos os que não pararam para pensar sobre isso aqui vão três exemplos. espero que a leitura destes possa tornar clara a inutilidade do tipo de empreendimento que descrevem.

1. um sujeito vai ao futuro para assistir à sua propria morte. quando morre, pensa: “a morte é justamente onde eu não estou, mas cá estou”. alternativamente: “há vida após a morte, só que não após a segunda morte”, ou “o gato morre sete vezes, e eu duas”.

corolário: se é concedida a possibilidade disso, então fica indicado o fato dos gatos viajarem para o futuro. 

2. um sujeito vai ao futuro assistir a sua morte. quando se empolga e comete a atrocidade, diz não poder ser preso por assassinato. na verdade se trata de suicídio doloso.

3. imagine-se viajando no tempo para o futuro com uma máquina portátil, com o objetivo de pentelhar-se por todos os dias de sua própria vida. convence-se, após pentelhar-se por um dia inteiro, a viajar para o dia seguinte e pentalhar-se por um dia inteiro, convencendo-se a pentalhar-se no dia seguinte por um dia inteiro etc. 

***

explicações: se ainda não entendeu onde deve-se chegar, leia abaixo.

1a. o sujeito chega no horário e local previsto pela cartomante para sua morte, afim de presencia-la em vida. só que daí morre.

1b. o sujeito chega no horário e local previsto pela cartomante para sua morte, só que não há ninguém lá. a cartomante sabia disso e enganou-o por um bom bocado. isso porque, justamente, ao viajar no tempo para o futuro, ele viajou no tempo para o futuro (e não envelheceu).

2. mesmas ressalvas a 1, com a adicional de que se suicidar é crime grave e inafiançável na maioria dos países do mundo.

3. pense sobre o propósito disso. faça um diagrama. não é muita estupidez?

***

corolário ortografia: eu escrevo feitiche com esse “i” antes do “t” mesmo. algumas pessoas tem me indicado que isso é errado, mas eu falo com o “i”. 

corolário futuro encontro: enquanto é fácil se encontrar no passado, no futuro isso não é tão simples. o modo mais garantido é voltar ao passado e se convencer a não voltar para o passado. aí sim, viajar ao futuro, e se encontrar mais velho. isso pode ser paradoxal, mas não chega a ser um feitiche.

corolário assassinato: voltar ao passado afim de se convencer a não voltar ao passado para ver sua própria morte no futuro pode ser problemático, especialmente se o caso for o do ponto 2. afinal, você não quererá ser morto, a menos que já seja suicida. se assassinar (ou suicidar-se-a-si-outro) no futuro não chegará nunca a ser tão emocionante quanto comer-se-enquanto-bebê no passado.


postado em 12 de novembro de 2012, categoria Uncategorized : , , , , ,

sobre os dois grandes feitiches da viagem no tempo

um dos grandes prazeres imaginados quando da execução dos feitiches da viagem do tempo é da ordem do paradoxo lógico. espera-se que o sentimento de estar acomentendo algo paradoxal, acoplado ao fato de estar-se autoinflingindo esse paroxismo, potencialize tanto o coito com a (não-mais)-progenitora (ou o equivalente masculino, se você for mulher), quanto as bocanhadas de carne assada, bife etc, de (não-mais)-você-quando-bebê. no caso do sexo, não apenas o pensamento “estou causando um puta paradoxo lógico”, mas o esperado sentimento de se perceber justamente como o ponto focal daquele paradoxo (o que supostamente aumentaria em muito a virilidade).  

contra essas especulações, no que concerne o primeiro feitiche, douglas adams escreve, em o restaurante no fim do universo (sextante, 2004, cap. 15):

“não há nenhum problema em tornar-se seu próprio pai ou mãe com que uma família de mente aberta e bem ajustada não possa lidar.também não há nenhum problema em relação a mudar o curso da história – o curso da história não muda porque todas as peças se juntam como num quebra-cabeças. todas as mudanças importantes já ocorreram antes das coisas que deveriam mudar e tudo se resolve no final.

o problema maior é simplesmente gramatical, e a principal obra a ser consultada sobre esta questão é o tratado do dr. dan streetmentioner, o manual das 1001 formações de tempos gramaticais para viajantes espaço-temporais. nesse livro você aprente, por exemplo, como descrever algo que estava prestes a acontecer com você no passado antes que o acontecimento fosse evitado quando você pulou para a frente dois dias. (…)

a maioria dos leitores chega até o futuro semicondicionalmente modificado subinvertido plagal do pretérito subjuntivo intencional antes de desistir. (…)

o guia dos mochileiros das galáxias passa levemente por cima dessas complexidades acadêmicas, parando apenas para notar que o termo ‘pretério perfeito’ foi abandonado depois que se descobriu que não era assim”.

uma teoria alternativa versa que toda vez que voltamos ao passado, criamos um universo paralelo, de tal modo que a comermo-nos-enquanto-bebês situamo-nos imediatamente em um universo em que não-nos-somos-enquanto-bebês, de tal modo que também não sentimos o paradoxo do tempo senão como a mera expectativa de senti-lo (o que, no entanto, parece ser suficiente para o feitiche). 

ilya prigogine, em as leis do caos (editora unesp, 2000) defende que o tempo possui uma seta sempre para frente, ou seja, que é irreversível.

 

 


postado em 8 de novembro de 2012, categoria Uncategorized : , , , , , , , , ,

os dois grandes feitiches da viagem no tempo

1. voltar no tempo e casar com a sua mãe, antes dela conhecer o seu pai (ou o contrário, se você for mulher).

2. voltar no tempo, raptar você mesmo quando bebê e comer-se.

por razões que devem ser evidentes àqueles que pensaram sobre o assunto, não há grandes feitiches para viagens no tempo para o futuro.


postado em 5 de novembro de 2012, categoria Uncategorized : , , , ,