alma

ter uma alma significa primeiro que não somos essencialmente nosso corpo, mas logo depois, que tampouco somos nossa mente e consequentemente, que não somos essencialmente nosso ego. ter uma alma, portanto, implica eu ≠ eu. o profundo e o superficial. como essência, quer indicar um descentramento constitutivo, ou seja, uma estabilidade puramente formal, e a nossa liberdade não é, em verdade, nossa. uma determinação que não nos diz nada é uma ótima oportunidade de forjar deveres. mas os deveres só valem pra outrem.


postado em 27 de novembro de 2017, categoria aforismos : , , , , , , , ,

arte contra a cultura

muitas pessoas adotam posições amenas em que, providencialmente, se omitem enquanto participantes. a observação mais perspicaz que conheço sobre isso é a anedota do congestionamento.

um sujeito, preso em um congestionamento, liga para seu colega de trabalho, dizendo: “vou chegar atrasado. é que estou aqui ajudando a congestionar a via com meu carro.”

no meio artístico é comum que se fale e faça muita arte contra a cultura, querendo dizer: contra a cultura dos outros, não a minha. de modo que o artista nunca fica perplexo em relação ao que fez, ou angustiado; seus amigos sempre podem ir aos seus shows e exposições mantendo um sorriso leve no rosto e curtir. há quem fale de um entretenimento “superior”. ninguém nunca vai comentar que você “forçou a amizade”.


postado em 21 de abril de 2017, categoria aforismos, comentários : , , , , ,

tournier e o outrem

em sexta-feira ou os limbos do pacífico, michel tournier escreve (rio de janeiro: bertrand brasil, 1991, p. 31):

descobriu assim que outrem é para nós um poderoso fator de distração, não apenas porque nos perturba constantemente e nos arranca ao pensamento atual, mas ainda porque a simples possibilidade do seu aparecimento lança um vago luar sobre um universo de objetos situados à margem da nossa atenção mas capaz a todo o momento de se lhe tornar o centro. esta presença marginal e como que fantasmal das coisas com que, de imediato, não se preocupava apagara-se aos poucos no espírito de robinson. encontrava-se doravante rodeado de objetos submetidos à lei sumária do tudo ou nada (…)

a arte, certas práticas: como essa dissolução da virtualidade não é individualista, mas sim individual, sem outro – devir.


postado em 26 de agosto de 2013, categoria comentários : , , , , ,