comprovação da falsidade da ciência

ele mata quem iria dizer se ele realmente morre quando se suicida
mas como ela iria dizer pra ele e ele mata ela e depois se mata
então os dois vivem
e comprovam que a morte é um engodo

***

(por ocasião da abertura da exposição casa para um animal, de carolina botura e pelo fato de eu estar a tomar a vacina contra a febre amarela, resolvi tomar também a antitetânica. algumas horas depois estava de cama, convalescendo. um dia depois, um pouco melhor e dopado de ibuprofeno, converso com j.-p. caron, chegando a conclusão de que o melhor a fazer quando estiver manuseando pregos enferrujados, é esburacar o meu braço e pegar tétano. cqd sqn)


postado em 7 de abril de 2017, categoria prosa / poesia : , , , , , , , , , ,

o não-amanhã

houve uma época em que antes de dormir me fazia a pergunta: e se eu não acordasse no dia seguinte? normalmente, quando não sentia grande apego à existência, quando deixar de ser e deixar de sentir ser poderiam ser equivalentes (no sono não-r.e.m., por exemplo), eu dormia bem.

david hume escreveu que a proposição “o sol não nascerá amanhã” é tão inteligível quanto a que considera que ele nascerá. mas com isso, não discursava nem sobre o sol, nem sobre a possibilidade de uma manhã na escuridão. alguns seres simplesmente somem.

ou melhor: a diferença de sumir e deixar de existir.


postado em 30 de junho de 2016, categoria comentários : , , , , ,

poema-plágio roubado de ana martins marques

como o alpinista ama o vazio das grandes alturas
trabalho dias seguidos uma morte que não entendo

{a vida submarina, de ana martins marques. belo horizonte: scriptum, 2009}

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bônus penélope

penélope enamourou-se de espera
e torcia toda noite que ulisses não voltasse

e não como (VI), eles sentados lado a lado, ela lhe narrando a segunda odisseia.


postado em 7 de dezembro de 2015, categoria prosa / poesia : , , , , , , , , ,

plano de morte

juntar bíblias corão talmude torá etc num galpão e queimar. esperar o assassino.

corolário 1: para a montagem da exposição incrível de kate mcintoshworktable, pediam-se doações. mas não de livros religiosos. (a instalação está aberta à visitação no sesc palladium, belo horizonte, até 28 de novembro)

corolário 2: houve um episódio em que um artista texano, johs rosen, mandou diversas mensagens para o mundo, pedindo que lhe enviassem álbuns de pierre boulez para que então ele os destruísse. essa foi uma das inspirações para meu duo #9.


postado em 20 de novembro de 2015, categoria proposições : , , , , , , , , , , , , ,

suicídio e panelaço

dorothé depeauw gentilmente me contou a história do técnico do teatro que, no dia seguinte à apresentação de o brasil não chega às oitavas em belo horizonte, comentou com ela:

“ontem foi muito doido, né? a peça do panelaço. primeiro eu achei que não ia aguentar, mas fui ficando. foi me dando um sentimento de morte, como se a morte habitasse. e fiquei até o final, com vontade de morrer. eu gostei muito.”

e nesse momento ele estava ajustando a iluminação para a dança de dorothé e ela começou a ficar preocupada porque ele estava a pelo menos 6 metros do chão.

 


postado em 25 de setembro de 2015, categoria crônicas : , , , , ,

maximun jailbreak

earth a trap
storm the heavens
conquer death

maximun jailbreak

 

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a terra, uma armadilha
invada os céus
conquiste a morte

desbloqueio máximo


postado em 8 de janeiro de 2015, categoria prosa / poesia, reblog : , , , , ,

§6.4311 (2014-10)

uma proposição de guilherme darisbo (para uma coletânea dada da plataforma recs) me fez fazer uma música conceitual e pouco experiênciável. afinal, segundo Ray Brassier, a experiência é um mito (ler artigo genre is obsolete). a peça é uma proposição envolvendo um texto, incluso abaixo, um arquivo .pd (um gerador da própria peça, que precisa do software pure data para funcionar) e um arquivo .wav de curtíssima duração. pode ser baixada aqui.

Henrique Iwao – §6.4311 (Outubro de 2014)

Um arquivo wav de áudio com uma duração quase nula ou nula para produzir silêncio. Uma imagem png transparente muito pequena.

No Tractatus Logico-Philosophicus, Ludwig Wittgenstein escreve: “A morte não é um evento da vida. A morte não se vive. Se por eternidade não se entende a duração temporal infinita, mas a atemporalidade, então vive eternamente quem vive no presente. Nossa vida é sem fim, como nosso campo visual é sem limite.” (Edusp, 2001, Trad. Luiz Henrique Lopes dos Santos, p.277)

1. Seria esse parágrafo uma confrontação com a doutrina do eterno retorno, exposta no Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche?

2. Em um sentido, o instante não pode ser parte desse presente, porque é justamente o que, apesar de infinitesimal, já passou. (contra Wittgenstein).

3. Eu poderia dar a entender que tender a zero não ajuda em nada. Mas tender a zero nesse caso é tentar eliminar a possibilidade da experiência (fenômeno), para dar lugar ao conceito.

4. A experiência do conceito pode ser então vivida, assim como a de morte (do conceito de morte).

5. Isso de modo algum resolve a crítica esboçada por Brassier (ou melhor – chutada em “Genre is obsolete”) (a alma/o eu não é uma mônada, mas também um composto, ou então, um resíduo).

6. A peça, entretanto, existe. Se há uma tentativa de autoanulação enquanto fenômeno é porque a peça é também essa tentativa (ela nem exemplifica bem o aforismo nem o comenta bem, mas caminha junto a ele).

 


postado em 9 de outubro de 2014, categoria excertos, obras : , , , , , , , , , , , ,

memorial lucky luke

1. cissi se escondeu. meu pai verificou e tinha dado a luz. uma única vez, um único filho. pela aparência, o pai era um rottweiler.

2. pequenino, dormindo em cima da minha barriga, começa a fazer xixi.

3. seu nome, em homenagem ao personagem das bandas desenhadas, o lucas sortudo, o homem que atira mais rápido que sua própria sombra.

4. como um pastor alemão, a correr em volta da casa, voltas e voltas, mas com orelhas caídas.

5. passeando por barão geraldo, a tensão de ter de correr ao encontrar cachorros soltos e briguentos.

6. e aquela vez no terreno baldio ainda sem muro em volta (a alguns anos é um terreno baldio com muro em volta): ataque de uma mãe quero quero, razante eu e lucky. pra ele, apenas uma ocasião para correr. eu, imaginando bicadas no coro cabeludo.

7. quando cissi sumiu (não voltou após passeio noturno sem acompanhamento), já bem velha, talvez espreitasse a morte. eizaburo, meu vô japonês, também nos últimos meses de vida, saindo pra procurar gritando seu nome e nada – já depois da diabetes e dificuldade de locomoção. quando não há esperança mas tampouco para-se de procurar.

8. recebemos em casa café para fazer dupla com lucky. café era um boxer pequenino e novo, e como tal, um pouco desorientado. apesar do aumento de vitalidade, desconfiamos que lucky tenha aberto o portão e dito vá lá, o mundo é grande, depois você volta, eu também vou. mas só lucky retornou. deixou café perdido? deixou ele deslumbrar-se rua afora e não saber retornar? foi capturado? nunca mais o vimos.

9. kiko veio (ou quico), vira lata nomeado em homenagem ao novo papa (numa família inteiramente atéia!). lucky cada vez mais velho, animou-se de novo. mas era velho, cada vez mais.

10. 16 e 17 anos. ficou um pouco cego. ficou mais teimoso. ficou cego e surdo. latia pouco. sua perna tremia.

11. um belo dia, como diria guimarães rosa, se encantou (se vale para pessoas, deve valer para cachorros também). lucky teve um ataque cardíaco, vomitou e morreu. foi enterrado dignamente no buracão, debaixo de uma arvorinha.

lucky luke 2012-08-21 e bola


postado em 20 de agosto de 2014, categoria crônicas : , , , , , , , , ,

sobre a morte #4

ainda no referido site (nine million ways to die) encontro a seguinte descrição:

((•••)••)

homem assassinado por mulher. relação heterossexual.

queria “afogar-se até morrer naquela peitaria pesada”. posicionou a cabeça e ela o prendeu com seus braços fortes. efeito similar ao de asfixia com um travesseiro. homem relutando mas sem forças. pouco antes de morrer, desesperado, morde o seio esquerdo. sangue, morte, dor. o filho da puta.


postado em 23 de junho de 2014, categoria prosa / poesia : , , , , ,

sobre a morte #3

imaginando cenários de morte, encontro em um site intitulado nine million ways to die algo que me interessa:

(((•)•)((•)))

homem assassinado por mulher. relação heterossexual.

seu grande amor, ao fazer sexo, enforca-o até o quase-sufocamento. as mãos largam no momento imediatamente ante-gozo. assim que ele (gozo) vem, então, sincronicamente, ela profere o golpe fatal, impacto de punho cerrado no pomo de adão.


postado em 19 de junho de 2014, categoria prosa / poesia : , , , , , ,