3 prefácios

sempre fui fascinado por esses três prefácios, coletados abaixo – bataille, nietzsche, wittgenstein. megalomania sem eu.

1. georges bataille – teoria das religiões, 1948 (publicado em 1973). trad. de fernando scheibe, autêntica, 2015.

Onde este livro está situado

O fundamento de um pensamento é o pensamento de um outro, o pensamento é o tijolo cimentado em um muro. É um simulacro de pensamento se, no retorno que faz sobre si mesmo, o ser que pensa vê um tijolo livre e não o preço que lhe custa essa aparência de liberdade: ele não vê os terrenos baldios e os amontoados de detritos a que uma vaidade suscetível o abandona com seu tijolo.

O trabalho do pedreiro, que compõe, é o mais necessário. Assim, os tijolos vizinhos, num livro, não devem ser menos visíveis que o novo tijolo que o livro é. O que é proposto ao leitor, de fato, não pode ser um elemento, mas o conjunto em que ele se insere: é toda a composição e o edifício humanos que não podem ser apenas amontoamento de cacos, mas consciência de si.

Em certo sentido, a composição ilimitada é o impossível. É preciso coragem e obstinação para não perder o fôlego. Tudo leva a largar a presa que é o movimento aberto e impessoal do pensamento pela sombra da opinião isolada. É claro que a opinião isolada é também o meio mais rápido de revelar aquilo que a composição é profundamente: o impossível. Mas ela só tem esse sentido profundo sob a condição de não ser consciente dele.

Essa impotência define um ápice da possibilidade ou, ao menos, a consciência da impossibilidade abre a consciência a tudo aquilo que lhe é possível refletir. Nesse lugar de ajuntamento, onde a violência impera, no limite do que escapa da coesão, aquele que reflete na coesão percebe que não há mais lugar para ele.

2. friedrich nietzsche – ecce homo, 1888 (publicado em 1908). trad, de paulo césar de souza, companhia das letras, 1995.

Prólogo: 4.

Entre minhas obras ocupa o meu Zaratustra um lugar à parte. Como ele fiz à humanidade o maior presente que até agora lhe foi feito. Esse livro, com uma voz de atravessar milênios, é não apenas o livro mais elevado que existe, autêntico livro do ar das alturas – o inteiro fato homem acha-se a uma imensa distância abaixo dele -, é também o mais profundo, o nascido da mais oculta riqueza da verdade, poço inesgotável onde balde nenhum desce sem que volte repleto de ouro e bondade. Aqui não fala nenhum “profeta”, nenhum daqueles horrendos híbridos de doença e vontade de poder chamados fundadores de religiões. É preciso antes de tudo ouvir corretamente o som que sai desta boca, este som alciônico, para não se fazer deplorável injustiça ao sentido de sua sabedoria. “As palavras mais silenciosas são as que trazem a tempestade, pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem o mundo -”

Os figos caem das árvores, são bons e doces: e ao caírem rasga-se sua pele rubra. Um vento do norte sou para os figos maduros.
Assim, como figos vos caem esses ensinamentos, meus amigos: bebei seu sumo e sua doce polpa! É outono em torno e puro céu e tarde.

Aí não fala um fanático, aí não se “prega”, aí não se exige : é de uma infinita plenitude de luz e profundeza de felicidade que vêm gota por gota, palavra por palavra – uma delicada lentidão é a cadência dessas falas. Tais coisas alcançam apenas os mais seletos; ser ouvinte é aqui um privilégio sem igual; não é dado a todos ter ouvidos para Zaratustra… Com tudo isso, não será Zaratustra um sedutor? … Mas o que diz ele mesmo, ao retornar pela primeira vez à sua solidão? Precisamente o oposto do que diria em tal caso qualquer “sábio”, “santo”, “salvador do mundo” ou outro décadent… Ele não apenas fala diferente, ele é também diferente…

3. ludwig wittgenstein – tractatus logico-philosophicus, 1918 (publicado em 1921). trad. luiz henrique lopes dos santos, edusp, 2001.

Prefácio

Este livro talvez seja entendido apenas por quem já tenha alguma vez pensado por si próprio o que nele vem expresso – ou, pelo menos, algo semelhante. – Não é, pois, um manual. – Teria alcançado seu fim se desse prazer a alguém que o lesse e entendesse.

O livro trata dos problemas filosóficos e mostra – creio eu – que a formulação desses problemas repousa sobre o mau entendimento da lógica de nossa linguagem. Poder-se-ia talvez apanhar todo o sentido do livro com estas palavras: o que se pode em geral dizer, pode-se dizer claramente; e sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

O livro pretende, pois, traçar um limite para o pensar, ou melhor – não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos: a fim de traçar um limite para o pensar, deveríamos poder pensar os dois lados desse limite (deveríamos, portanto, poder pensar o que não pode ser pensado).

O limite só poderá, pois, ser traçado na linguagem, e o que estiver além do limite será simplesmente um contra-senso.

O quanto meus esforços coincidem com os de outros filósofos, não quero julgar. Com efeito, o que escrevi aqui não tem, no pormenor, absolutamente nenhuma pretensão de originalidade; e também não indico fontes, porque me é indiferente que alguém mais já tenha, antes de mim, pensado o que pensei.

Desejo apenas mencionar que devo às obras grandiosas de Frege e aos trabalhos de meu amigo Bertrand Russell uma boa parte do estímulo às minhas ideias.

Se esta obra tem algum valor, ele consiste em duas coisas. Primeiramente, em que nela estão expressos pensamentos, e esse valor será maior quanto melhor expressos estiverem expressos os pensamentos. Quanto mais perto do centro a flecha atingir o alvo. – Nisso, estou ciente de ter ficado muito aquém do possível. Simplesmente porque minha capacidade é pouca para levar a tarefa a cabo. – Possam outros vir e fazer melhor.

Por outro lado, a verdade dos pensamentos aqui comunicados parece-me intocável e definitiva. Portanto, é minha opinião que, no essencial, resolvi de vez os problemas. E se não me engano quanto a isso, o valor desse trabalho consiste, em segundo lugar, em mostrar como importa pouco resolver esses problemas.


postado em 12 de dezembro de 2016, categoria excertos : , , , , , ,

louro

eu nunca entendi muito a função do louro no molho. esses dias, entretanto, comendo um macarrão à bolonhesa, olhei para uma folha e me veio o pensamento, como se o louro dissesse: você pode ir mais devagar.

similarmente, há modos de escrever que ralentam a leitura. wittgenstein fala disso em cultura e valor. de fato, lembro claramente de que se lesse o livro azul com certa pressa, achava que não estava dizendo nada, ao passo que se lesse devagar, ficava encantado com as ideias.

agora, não sei que formas ralentariam a escrita. e se algo que se deve ler devagar deve se escrever devagar. a questão da escrita, quando aparece, é quase sempre acelerar, processo lento que ela é.


postado em 21 de maio de 2015, categoria comentários : , , , , , , , , ,

leitura de provérbios

meu gosto pela leitura de provérbios se reflete no fato de que entre os meus escritores prediletos estão william blake, friedrich nietzsche e ludwig wittgenstein.

os três erram muito. mas nesse campo, são necessários muitos erros para um belo acerto.

(o fato de eu obter prazer do hábito de selecionar itens diversos está aí contemplado. entretanto, o fato de eu mostrar e dispor coleções em algumas obras minhas, evidencia melhor esse gosto: os ouvintes eles próprios têm acesso a essa sensação de joio e trigo)


postado em 7 de abril de 2015, categoria aforismos, comentários : , , , , , , , ,

§6.4311 (2014-10)

uma proposição de guilherme darisbo (para uma coletânea dada da plataforma recs) me fez fazer uma música conceitual e pouco experiênciável. afinal, segundo Ray Brassier, a experiência é um mito (ler artigo genre is obsolete). a peça é uma proposição envolvendo um texto, incluso abaixo, um arquivo .pd (um gerador da própria peça, que precisa do software pure data para funcionar) e um arquivo .wav de curtíssima duração. pode ser baixada aqui.

Henrique Iwao – §6.4311 (Outubro de 2014)

Um arquivo wav de áudio com uma duração quase nula ou nula para produzir silêncio. Uma imagem png transparente muito pequena.

No Tractatus Logico-Philosophicus, Ludwig Wittgenstein escreve: “A morte não é um evento da vida. A morte não se vive. Se por eternidade não se entende a duração temporal infinita, mas a atemporalidade, então vive eternamente quem vive no presente. Nossa vida é sem fim, como nosso campo visual é sem limite.” (Edusp, 2001, Trad. Luiz Henrique Lopes dos Santos, p.277)

1. Seria esse parágrafo uma confrontação com a doutrina do eterno retorno, exposta no Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche?

2. Em um sentido, o instante não pode ser parte desse presente, porque é justamente o que, apesar de infinitesimal, já passou. (contra Wittgenstein).

3. Eu poderia dar a entender que tender a zero não ajuda em nada. Mas tender a zero nesse caso é tentar eliminar a possibilidade da experiência (fenômeno), para dar lugar ao conceito.

4. A experiência do conceito pode ser então vivida, assim como a de morte (do conceito de morte).

5. Isso de modo algum resolve a crítica esboçada por Brassier (ou melhor – chutada em “Genre is obsolete”) (a alma/o eu não é uma mônada, mas também um composto, ou então, um resíduo).

6. A peça, entretanto, existe. Se há uma tentativa de autoanulação enquanto fenômeno é porque a peça é também essa tentativa (ela nem exemplifica bem o aforismo nem o comenta bem, mas caminha junto a ele).

 


postado em 9 de outubro de 2014, categoria excertos, obras : , , , , , , , , , , , ,

batalhas intelectualóides #1

1.

A. “joga então a escada fora”. B. “joga você”.

(contexto: §6.54 tractatus logico-philosophicus, wittgenstein, l.)

2.

o parágrafo 124 da gaia ciência (no horizonte do infinito) de nietzsche diz:

deixamos a terra firme e embarcamos! queimamos a ponte – mais ainda, cortamos todo o laço com a terra que ficou para trás! agora tenha cautela, pequeno barco! junto a você está o oceano, é verdade que ele nem sempre ruge, e às vezes se estende como seda e ouro e devaneio de bondade. mas virão momentos em que você perceberá que ele é infinito e que não há coisa mais terrível que a infinitude.

A. “tipo isso”. B. “não tem a ver”. A. “tem sim”. B. “cara, você omitiu todo o papo do ‘passarinho na gaiola'”.

3.

A. “um proctologista nunca faria uma consulta nessa posição aí”. B. “e tu, assíduo frequentador de proctologistas…”. A. “só estou generalizando, penso em mulheres”. B. “mulheres, bom, então eu contestaria isso que vc está dizendo… mas jogarei a escada por hora.”

{vitória de A sobre B?}

 


postado em 13 de novembro de 2013, categoria crônicas : , , , , , , , , ,

o problema da adição, #1

1. 2+2 ≠ 5: dois mais dois resulta diferente de cinco, a despeito do que uma canção do radiohead possa insinuar, ou um romance de george orwell. sinto uma leve irritação quando ouço thom yorke cantando (the lurkewarm). penso: isso está errado, e nem chega a ser algo que verdadeiramente representa um isolamento da sociedade, ou uma perda da capacidade de raciocinar.

2. agora, lembremos do empirismo (por exemplo, john stuart mill – que conheço via feyerabend): coloco uma batata do lado da outra, tenho duas batatas. junto outra dupla de batatas, tenho quatro batatas.

3. se vivessemos em um mundo em que toda vez que junto quatro objetos de um tipo específico, um quinto aparece. nossa matemática seria outra. mas mais ainda: nossa ontologia também (colocando 4 objetos juntos e vendo um quinto surgir, teríamos certeza de que aqueles objetos são realmente aqueles objetos – isto é, se não aparece um quinto, certamente uma das ‘batatas’ não era uma batata).

4. agora, por mais descondicionado / desconfabulado / desdisposicionado que um sujeito esteja, big brother grande irmão, sujeito não vai prestar atenção e confundir um mundo com outro (inexistente)? não, não vai. mas ele pode treinar para esvaziar o significado das palavras; mesmo aí não se tratará mais da operação de adição (continua valendo, 2+2 ≠ 5, mesmo que se diga o contrário; pode-se dizer um monte de coisas; mas pode-se significa-las?).

5. pois aprendo a operar a adição adicionando. tenho uma tabela: 0+1, 0+2, …, 0+9, 1+0, 1+1, 1+2, 1+3, …, 1+9, 2+0, 2+1, 2+2, 2+3, …, 2+9, 3+0, …, 9+1, …, 9+9. repito e repito. alguém me corrige quando erro, ou eu mesmo, a consultar as respostas. pego objetos, espalho, junto.


postado em 16 de outubro de 2012, categoria Uncategorized : , , , , , , , , , , , , ,

o problema da adição, #2

1. mas se eu quiser somar dois números como 10907895430987523408975904098750432987548907259859748940259874359084372590498423579085740987584903259884875448579408957 e 20984275092870923845709870493285709875298467956875069803985786340328974983720481089734983279483798?

2.

 

5. a figura do cético de kripke surge nesse momento. a partir do ceticismo de wittgenstein (deinvestigações filosóficas), kripke elabora a colocação (num belíssimo livro, wittgenstein: on rules and private language): e se por 


postado em , categoria Uncategorized : , , , ,

potência

posso dizer, embora talvez seja exagero, que minha admiração por wittgenstein é irrestrita. hakim bey escreveu algures da ânsia de poder como desaparecimento. sub speci aeterni [do ponto de vista da eternidade]: “o caminho do pensamento que, por assim dizer, voa sobre o mundo e o deixa tal como é – observando-o de cima, em voo.” atividade tática.

[1. para quem não acompanhou a discussão sobre os poderes, vide essa postagem aqui]

[2. bey, hakim. taz. wittgenstein, ludwig. cultura e valor. de certeau, michel. a invenção do cotidiano vol.1 modos de fazer]


postado em 27 de julho de 2012, categoria Uncategorized : , , , , ,

contraponto

sobre o contraponto, ludwig wittgenstein escreve (cultura e valor. lisboa: edições 70, 2000 [anotação datada de 1941]):

“o contraponto pode ser um problema extraordinariamente difícil para um compositor; nomeadamente, o problema: que atitude deverei adoptar, dadas as minhas inclinações, relativamente ao contraponto? ele pode ter descoberto uma atitude convencionalmente aceitável e, contudo, sentir ainda que esta não é, propriamente a sua. que não é claro o que o contraponto devia para ele significar. (estava a pensar, a esse respeito, em schubert; no facto de ele querer ter lições de contraponto já perto do fim da sua vida. penso que a sua intenção pode ter sido, não tanto aprender apenas mais um contraponto, mas determinar as suas relações com ele.)”

brahms, que tomou como modelo muito do que beethoven edificou, o fez tendo em mente seus últimos trabalhos. mas, enquanto no contraponto do beethoven final há um sentido de conflito, de destino (resgate, inadequação, futuro), em brahms as coisas soam mais resolvidas, atenuadas. o excesso da quarta sinfonia pode ser tomado como um excesso do contraponto, mas o uso em si não é um uso desbravador. foi preciso o quarto movimento, para resgatar esse sentido, patente no final da nona sinfonia de beethoven, uma mistura de arcaísmo, destinação e .


postado em 19 de fevereiro de 2012, categoria Uncategorized : , , , ,

um pensamento

“quão pequeno é um pensamento necessário para preencher uma vida inteira!

tal como um homem pode passar a sua vida a viajar em torno de um mesmo país e pensar que nada mais há para além dele!

vês tudo numa perspectiva (ou projecção) estranha: o país pelo qual continuas a viajar surpreende-te porque parece enormemente grande; os países que o rodeiam parecem todos pequenas regiões fronteiriças.

se quiseres ir mais fundo não necessitas de viajar para longe; de facto, não precisas de abandonar as tuas cercanias mais imediatas e familiares.”

(wittgenstein, l. cultura e valor. trad. jorge mendes, edições 70, 2000 (1980). pg. 78)

proverb (1985), de steve reich, para três sopranos, dois tenores, dois vibrafones e dois orgãos elétricos. o texto é a versão inglesa para a primeira frase apresentada acima: “how small a thought it takes to fill a whole life!” 


postado em 2 de fevereiro de 2012, categoria Uncategorized : , , , , ,