artist statement

meu trabalho abarca todas as formas de arte, incluindo a música experimental, a videoarte, a performance e a literatura, mas não a pintura (e o desenho (e também não estritamente a escultura, o circo e certos tipos de poesia lírica)). isso entretanto não significa desprezar a história dessa grande arte que de vermeer a rothko, passando por turner, encantou ao mundo, e mereceu até mesmo um conto especialmente inspirado de perec (a coleção particular). muito pelo contrário. de modo que meu objetivo final seria criar uma obra de arte cuja alma fosse finalmente indiscernível daquela que, aos espíritos mais refinados, amorosos e atentos, pode-se enfim observar como pertencendo ao cravo bem temperado, de johan sebastian bach. que essa obra não seja uma pintura, mas sim uma coleção de peças musicais, não é aqui relevante (e até onde eu saiba, ela tampouco inspira-se em temas pictográficos, como ferneyhough ao referir-se a matta, em la terre est un homme (não que eu goste muito dessa música, prefiro antes terrain, ou a ópera em torno de walter benjamin (aliás, um escritor medíocre)). é claro, essa obra em si, a que eu me referia, fruto futuro de meus mais empenhados esforços e sonho constante de meus empreendimentos mais delirantes, pouco teria a ver com os dois volumes de 24 prelúdios e fugas, de dó maior, subindo até si menor, duas vezes, como duplos disjuntivos. talvez, e estou consciente da tênue esperança que, como o fio de ariadne, me conduz pelo labirinto da intuição humana (com a diferença em relação ao mito de que, no caso, nem o próprio arquiteto, ao construí-lo, diferentemente de dédalo, entendia bem o que exatamente eram suas paredes, e ficava inteiramente perplexo perante o conceito de saída…), exista essa possibilidade. então, se o conjunto de minha obra, da biografia póstuma, às minhas participações em passeatas, por fim chegando aos períodos de silêncio, aos panelaços, à síntese fm e na conclusão de que uma única fixação me perseguia, ou antes que eu a perscrutava, repetidamente, infatigável, sempre e constantemente, pois bem, se ele ao menos tangenciar essa ideia, mas bem melhor seria atingi-la por completo e então minha vida, como tantas outras, não terá sido uma completa perda de tempo.

 


postado em 27 de fevereiro de 2016, categoria crônicas, publicitade : , , , , , , , , , , , ,

ritornelo 1

sempre tenho dúvida quanto a se é para tocar duas vezes cada parte das partitas de bach, dos movimentos com ritornelos no meio e no final. glenn gould opta, por vezes, por tocar apenas os da primeira parte. na última sonata de beethoven, ele ignora a barra de repetição, no movimento de variações.

webern mantém ritornelos nas suas variations op.27, inserindo-se assim, mais do que uma primeira impressão poderia sugerir, na longa tradição, desde o barroco até mozart e além até webern.

o botão repeat: “mais uma vez, sentir” (como um segundo café, um segundo pedaço de bolo); o botão tocar, apertado de novo: “agora prestando atenção” (como uma revanche). o primeiro é ligado antes do final, o segundo, acionado após.

Xsapréss, de rafael sarpa, para piano, contém dois ritornelos.

diz a canção dos pixies, trompe le monde: “e as palavras são as letras das palavras ditas. (…) essa canção é duas vezes ocorrida e agora é hora de sair de férias.”


postado em 15 de maio de 2012, categoria Uncategorized : , , , , , , , ,