os cortes nas artes em tempos de crise

parece que uma vez identificado que se está “em tempos de crise”, há uma corrida institucional para cortar certos tipos de financiamentos. em geral, esses cortes não parecem ser planejados de acordo com uma racionalidade econômica efetiva ou de acordo com um plano social coerente. em uma batalha por verbas, é muitas vezes verdade que o elo mais fraco perde, e que aqueles que perdem tendem cada vez a perder mais. mas me ocorreu que os cortes nas áreas artísticas e de cultura, áreas cujos orçamentos já são reduzidos e que em instâncias não impactam de modo relevante na soma total das contas, possa ter também outro tipo de significação. pois não terá esse tipo de corte, que se espalha de modo quase-epidêmico, um valor simbólico e uma efetividade especial no âmbito do enxugamento dos orçamentos?

penso que os gestores podem ter percebido que, ao cortar no financiamento artístico, cortam muito pouco em termos de montante, mas com isso já geram comoções cujo tamanho e visibilidade são suficientes para que a ação tenha valido a pena – com um mínimo de alteração efetiva, provocam um máximo de sensação de ação. como se os protestos e as acusações que seguem pudessem servir de bode expiatório para o fato de que não se corta de maneira racional nem segundo uma lógica de bem estar social, mas muito menos de uma maneira que lide com os problemas orçamentários reais. e a dupla valoração da arte a isso contribui da seguinte forma: seu valor humanista é muito grande – ela motiva defesas acalouradas; entretanto seu valor mercadológico é muito pequeno, de modo que eventos e iniciativas inteiras podem vir a extinguir-se em meio a falta de continuidade de aporte. seu valor total é sempre incerto, a oscilar entre um alto valor ideal, entre o estético e o ético, e um valor real baixo, de uma vontade de investimento baixa e efetividade duvidosa.


postado em 2 de novembro de 2017, categoria comentários : , , , , , ,

músico pobre tecnocracia

1. tem apenas um ítem de cada, daqueles que precisa para trabalhar. se eles falham, para.

2. como ter ítens dobrados é um luxo que não pode permitir-se, tem três opções, para lidar com suas economias: i. guardar dinheiro para readiquirir ítens que quebram e consertar os que falham; ii. adiquirir novos ítens que possam eventualmente transformar-se em ítens essenciais; iii. comprar ítens não-essenciais que possam melhorar um pouco seu trabalho.

3. tem medo de ser roubado, o que poderia favorecer a opção i. entretanto, o tempo urge, e se sua música é também lustrosa, sua exigência por melhorias de equipamento e anexos é maior. deixar o parco dinheiro guardado vs investir: esperança é o que há sempre, e quem sabe um trabalho mais lustrado leve a um maior ganho, e a possibilidade de, com ii. e iii., ainda garantir i.

4. tem amigos na mesma situação. a irmandade lhe dá alguma segurança. emprestar e pegar emprestado.


postado em 16 de junho de 2013, categoria aforismos : , , , ,

equanimidade 3

os matemáticos não sabem o que é o número (frege).

os economistas não sabem o que é o dinheiro (silveira).

por que esperar que os músicos saibam o que é o musical? eles operam com um monte de elementos: sons, estruturas, figuras, parâmetros, gestos, ações, notações, impulsos, acentos. mas certamente não poderiam saber o que é o musical. lyotard queria dar a esse fundamento um outro nome, um nome de matéria, e chamou de matiz sonoro.


postado em 18 de julho de 2012, categoria Uncategorized : , , , , , ,