todos os meus amigos

todos os meus amigos viraram padeiros
todos meus colegas vão de uber
e eu, que nado mal e ando de bicicleta mal
não tenho celular e não sei fazer torrada


postado em 11 de agosto de 2017, categoria prosa / poesia : , , , , , ,

ideia para um museu

1. em “território fantasma”, william gibson fala de um contêiner cheio de dinheiro sujo, esperando por uma oportunidade de lavagem. enquanto está a esperar, é deslocado de navio em navio, no mar, nunca ancorando. as posições dele são monitoradas por um sujeito que, entre outras coisas, presta serviço para um artista de arte locativa – ele programa roteadores secretos que projetam virtualmente imagens em locais públicos. algo que poderia apenas ser visto com o “google glass” antes do google glass, um dispositivo DIY pré-mercadológico.

2. na exposição do kandinsky no ccbb bh (que aliás, continua sem pagar o dinheiro de apresentações que lá fiz em janeiro), aquele brinquedinho imersivo sem graça, no térreo. mergulhar em uma realidade virtual de cores, um peixe para as formas.

3. eu já não sou um apreciador de kandinsky, acho-o um pintor grosseiro – comparemos com um pavel filonov ou um kasimir malevitch ou com não-pinturas de um el lissitsky. na verdade, eu acho o trabalho de posters sovietes mais interessante e melhor executado, por exemplo, embora sem as preocupações musicais (e em se tratando de preocupações musicais, o suprematismo as tem em melhor forma e certamente paul klee também, na alemanha).

4. gibson, ao explicar porque seus últimos três romances não se passavam em futuros distópicos, como todo o resto dos seus romances e contos anteriores, respondeu: “o futuro é agora, o futuro já está aqui, apenas desigualmente distribuído”.

5. um ex-kgb, muito puto com os donos do contêiner, armou um modo de contaminar o conteúdo com césio, de modo que eles não o percebessem. dinheiro marcado, mas apenas para dectetores de radiação.

6. um museu não precisa mais do que roteadores e celulares, projetores e superfícies, alguns móveis. mapping e esculturas virtuais. sensores e passeios por zonas temporárias.


postado em 14 de julho de 2015, categoria comentários : , , , , , , , , , , , , ,

exílio em copacabana

1. mochila e latão, a outra mão levanta e pressiona a orelha: começa a falar sozinho,  falar espanhol e estar muito louco ou estar louco e achar que fala espanhol. baba. agora até aos demônios internos usa-se um celular.

2. depois de uma tarde agradabilíssima de conversas com aline, vou ao cinema sozinho e o que está passando é o hobbit 3.

2.1 que perda de tempo! mas fiquei pensando, nem tanto minha, que só foram 3 horas. imagina todas essas pessoas que efetivamente trabalharam durante meses nesse filme. que vida desperdiçada, que situação medíocre e melancólica.

2.2 assisti em 3d e com resolução maior. e o que a resolução maior, amplificada pelo 3d, faz é o seguinte – você começa a sentir (saber sem poder exatamente precisar) que as roupas não estão sujas o suficiente, que há maquiagem demais em alguns atores; começa a intuir o que é cg e o que é cenário. começa a ter rusgas com a iluminação artificiosa. tudo parece mais teatral, mas uma teatralidade mal definida – a maior qualidade confere menos realismo (expõe pontos de não realismo).

3. muleque na praia, olhando pra uma pilha de garrafas sujas, pegando uma delas, escolhida, olhando para os colegas e dizendo “aí mané gozou nessa porra”.

4. na nossa sr de copacabana, dois adolescentes já um pouco crescidinhos – mermão, tu me chantageou. vou ligar pra sua mãe. (foda-se, foda-se você, foda-se mermão.)

5. na virada fogos de artifício medíocres e rápidos. meninas argentinas sem noção, italianos e franceses com alguma noção. uma barca pegando fogo, algum interesse nisso. passo o tempo todo fazendo cara de paulista entediado.

6. sentado num empório, com um livro difícil e chato e uma cerveja belga, entra uma mulher cadeirante e seu marido, e depois um homem cadeirante e sua esposa. (eles acham que sou escritor e vou utilizar essa cena no meu próximo livro: “sua esposa é nova, você é cadeirante faz tempo? ela te conheceu antes ou depois? / antes, alguns anos atrás. ela apaixonou quando viu meu apartamento. seu marido não é rico pelo jeito. / eu sou médico, moramos no canadá, é a primeira vez que estamos aqui. / ei, me vê um desses cafés de cocô de jabiru.)


postado em 22 de fevereiro de 2015, categoria crônicas : , , , , , , ,

celular

1. uma camiseta branca, escrito em preto, letras garrafais: “quem não trabalha direito usa celular”.

2. não planejar é a melhor maneira de multiplicar imprevistos.

3. provérbios urbanos (atentem à ordem das palavras): “quem não tem concentração tem celular.”


postado em 18 de julho de 2013, categoria aforismos : , ,