quanto ao excesso de sentido da vida

1. a arte reduz/fixa
2. a ciência desloca/elimina
3. a filosofia circunscreve/delimita


postado em 1 de outubro de 2017, categoria aforismos, prosa / poesia : , , , , ,

arte contra a vida

1. um poema

barrar o devir
expiar a experiência
domar a loucura

arte contra a vida

2. são notórias as reclamações de bataille contra o (segundo) surrealismo, ou o “surrealismo estético”. não sei se ele teria previsto o quão rápido seria a apropriação ou o paralelismo publicitário nesta direção, produzindo um misto de arte e vida contra a vida. mas ele estava suficientemente consternado com um tipo de arte expressiva, a ponto de escrever:

se um homem começa a seguir um impulso violento, o fato de exprimi-lo significa que renuncia a segui-lo ao menos durante o tempo de expressão. A expressão exige que se substitua a paixão pelo signo exterior que a figura. Aquele que se exprime deve, portanto, passar da esfera ardente das paixões à esfera relativamente fria e sonolenta dos signos. Em presença da coisa exprimida, é preciso, portanto, sempre se perguntar se aquele que a exprime não prepara para si mesmo um profundo sono.

{georges bataille, a loucura de nietzsche, trad. fernando scheibe, editora cultura e barbárie, achephale vol. 5, p.9}

em relação à impostura de “um pesadelo que justifica roncos”, nada mais frouxo e distanciado da loucura, de tornar-se vítima de suas próprias leis. eis a potência da arte expressiva: normalizar.


postado em 24 de setembro de 2017, categoria aforismos, prosa / poesia : , , , , ,

arte contra a cultura

muitas pessoas adotam posições amenas em que, providencialmente, se omitem enquanto participantes. a observação mais perspicaz que conheço sobre isso é a anedota do congestionamento.

um sujeito, preso em um congestionamento, liga para seu colega de trabalho, dizendo: “vou chegar atrasado. é que estou aqui ajudando a congestionar a via com meu carro.”

no meio artístico é comum que se fale e faça muita arte contra a cultura, querendo dizer: contra a cultura dos outros, não a minha. de modo que o artista nunca fica perplexo em relação ao que fez, ou angustiado; seus amigos sempre podem ir aos seus shows e exposições mantendo um sorriso leve no rosto e curtir. há quem fale de um entretenimento “superior”. ninguém nunca vai comentar que você “forçou a amizade”.


postado em 21 de abril de 2017, categoria aforismos, comentários : , , , , ,

abstração e arte

reza negarestani escreveu um ensaio para uma exposição de jean-luc molène, torture concrete (2014, sequence press). uma bela resenha sobre pode ser lida aqui, com as fotos que faltam terrivelmente no livreto, ao final. (traduzo trechos interessantes sobre o papel da abstração na arte)

A abstração é da ordem da crueldade formal do pensamento. Em sua forma mais trivial e inocente ela envolve pura mutilação: amputar, da matéria sensível, a forma. Em suas instâncias mais complexas – isto é, mais autênticas -, é a organização concomitante da matéria pela força do pensamento, e a reorientação do pensamento por forças materiais. É a mútua penetração e desestabilização do pensamento e da matéria de acordo com os seus respectivos mecanismos de regulação e controle. {5}

O que sustenta e impulsiona o sistema de abstração é a ambição do pensamento de liberar a si da tirania do aqui e agora, a qual é representada como o apego do pensamento a um substrato material particular, uma intuição específica ou um limite colocado pela imaginação. {6}

(…) a tarefa da arte é redescoberta não em sua ostensiva autonomia, mas em seu poder singular de rearranjo e desestabilização das relações de configuração entre os parâmetros do pensamento, os parâmetros da imaginação e as restrições materiais que estruturam e parametrizam o edifício cognitivo. {7}

 


postado em 18 de outubro de 2016, categoria excertos : , , , ,

inofensiva

eu nunca construí um foguete em minha garagem; eu nunca me tranquei numa gaiola com um coiote; eu nunca pedi a um amigo que me desse um tiro no braço; não invadi um espaço de apresentação com um bulldozer; não coloquei jesus contra o universo, usando vísceras de porco.

minha arte é, portanto, inofensiva.


postado em 29 de janeiro de 2016, categoria comentários : , , , , , , ,

paparazzi

não gostava de ir em eventos de performance por causa dos paparazzi. mas hoje em dia não se escapa nem em seminários de arte. democratização facebook style.


postado em 7 de junho de 2014, categoria crônicas : , , , , , ,

tournier e o outrem

em sexta-feira ou os limbos do pacífico, michel tournier escreve (rio de janeiro: bertrand brasil, 1991, p. 31):

descobriu assim que outrem é para nós um poderoso fator de distração, não apenas porque nos perturba constantemente e nos arranca ao pensamento atual, mas ainda porque a simples possibilidade do seu aparecimento lança um vago luar sobre um universo de objetos situados à margem da nossa atenção mas capaz a todo o momento de se lhe tornar o centro. esta presença marginal e como que fantasmal das coisas com que, de imediato, não se preocupava apagara-se aos poucos no espírito de robinson. encontrava-se doravante rodeado de objetos submetidos à lei sumária do tudo ou nada (…)

a arte, certas práticas: como essa dissolução da virtualidade não é individualista, mas sim individual, sem outro – devir.


postado em 26 de agosto de 2013, categoria comentários : , , , , ,