os cortes nas artes em tempos de crise

parece que uma vez identificado que se está “em tempos de crise”, há uma corrida institucional para cortar certos tipos de financiamentos. em geral, esses cortes não parecem ser planejados de acordo com uma racionalidade econômica efetiva ou de acordo com um plano social coerente. em uma batalha por verbas, é muitas vezes verdade que o elo mais fraco perde, e que aqueles que perdem tendem cada vez a perder mais. mas me ocorreu que os cortes nas áreas artísticas e de cultura, áreas cujos orçamentos já são reduzidos e que em instâncias não impactam de modo relevante na soma total das contas, possa ter também outro tipo de significação. pois não terá esse tipo de corte, que se espalha de modo quase-epidêmico, um valor simbólico e uma efetividade especial no âmbito do enxugamento dos orçamentos?

penso que os gestores podem ter percebido que, ao cortar no financiamento artístico, cortam muito pouco em termos de montante, mas com isso já geram comoções cujo tamanho e visibilidade são suficientes para que a ação tenha valido a pena – com um mínimo de alteração efetiva, provocam um máximo de sensação de ação. como se os protestos e as acusações que seguem pudessem servir de bode expiatório para o fato de que não se corta de maneira racional nem segundo uma lógica de bem estar social, mas muito menos de uma maneira que lide com os problemas orçamentários reais. e a dupla valoração da arte a isso contribui da seguinte forma: seu valor humanista é muito grande – ela motiva defesas acalouradas; entretanto seu valor mercadológico é muito pequeno, de modo que eventos e iniciativas inteiras podem vir a extinguir-se em meio a falta de continuidade de aporte. seu valor total é sempre incerto, a oscilar entre um alto valor ideal, entre o estético e o ético, e um valor real baixo, de uma vontade de investimento baixa e efetividade duvidosa.


postado em 2 de novembro de 2017, categoria comentários : , , , , , ,

quanto ao excesso de sentido da vida

1. a arte reduz/fixa
2. a ciência desloca/elimina
3. a filosofia circunscreve/delimita


postado em 1 de outubro de 2017, categoria aforismos, prosa / poesia : , , , , ,

arte contra a vida

1. um poema

barrar o devir
expiar a experiência
domar a loucura

arte contra a vida

2. são notórias as reclamações de bataille contra o (segundo) surrealismo, ou o “surrealismo estético”. não sei se ele teria previsto o quão rápido seria a apropriação ou o paralelismo publicitário nesta direção, produzindo um misto de arte e vida contra a vida. mas ele estava suficientemente consternado com um tipo de arte expressiva, a ponto de escrever:

se um homem começa a seguir um impulso violento, o fato de exprimi-lo significa que renuncia a segui-lo ao menos durante o tempo de expressão. A expressão exige que se substitua a paixão pelo signo exterior que a figura. Aquele que se exprime deve, portanto, passar da esfera ardente das paixões à esfera relativamente fria e sonolenta dos signos. Em presença da coisa exprimida, é preciso, portanto, sempre se perguntar se aquele que a exprime não prepara para si mesmo um profundo sono.

{georges bataille, a loucura de nietzsche, trad. fernando scheibe, editora cultura e barbárie, achephale vol. 5, p.9}

em relação à impostura de “um pesadelo que justifica roncos”, nada mais frouxo e distanciado da loucura, de tornar-se vítima de suas próprias leis. eis a potência da arte expressiva: normalizar.


postado em 24 de setembro de 2017, categoria aforismos, prosa / poesia : , , , , ,

arte contra a cultura

muitas pessoas adotam posições amenas em que, providencialmente, se omitem enquanto participantes. a observação mais perspicaz que conheço sobre isso é a anedota do congestionamento.

um sujeito, preso em um congestionamento, liga para seu colega de trabalho, dizendo: “vou chegar atrasado. é que estou aqui ajudando a congestionar a via com meu carro.”

no meio artístico é comum que se fale e faça muita arte contra a cultura, querendo dizer: contra a cultura dos outros, não a minha. de modo que o artista nunca fica perplexo em relação ao que fez, ou angustiado; seus amigos sempre podem ir aos seus shows e exposições mantendo um sorriso leve no rosto e curtir. há quem fale de um entretenimento “superior”. ninguém nunca vai comentar que você “forçou a amizade”.


postado em 21 de abril de 2017, categoria aforismos, comentários : , , , , ,

abstração e arte

reza negarestani escreveu um ensaio para uma exposição de jean-luc molène, torture concrete (2014, sequence press). uma bela resenha sobre pode ser lida aqui, com as fotos que faltam terrivelmente no livreto, ao final. (traduzo trechos interessantes sobre o papel da abstração na arte)

A abstração é da ordem da crueldade formal do pensamento. Em sua forma mais trivial e inocente ela envolve pura mutilação: amputar, da matéria sensível, a forma. Em suas instâncias mais complexas – isto é, mais autênticas -, é a organização concomitante da matéria pela força do pensamento, e a reorientação do pensamento por forças materiais. É a mútua penetração e desestabilização do pensamento e da matéria de acordo com os seus respectivos mecanismos de regulação e controle. {5}

O que sustenta e impulsiona o sistema de abstração é a ambição do pensamento de liberar a si da tirania do aqui e agora, a qual é representada como o apego do pensamento a um substrato material particular, uma intuição específica ou um limite colocado pela imaginação. {6}

(…) a tarefa da arte é redescoberta não em sua ostensiva autonomia, mas em seu poder singular de rearranjo e desestabilização das relações de configuração entre os parâmetros do pensamento, os parâmetros da imaginação e as restrições materiais que estruturam e parametrizam o edifício cognitivo. {7}

 


postado em 18 de outubro de 2016, categoria excertos : , , , ,

inofensiva

eu nunca construí um foguete em minha garagem; eu nunca me tranquei numa gaiola com um coiote; eu nunca pedi a um amigo que me desse um tiro no braço; não invadi um espaço de apresentação com um bulldozer; não coloquei jesus contra o universo, usando vísceras de porco.

minha arte é, portanto, inofensiva.


postado em 29 de janeiro de 2016, categoria comentários : , , , , , , ,

paparazzi

não gostava de ir em eventos de performance por causa dos paparazzi. mas hoje em dia não se escapa nem em seminários de arte. democratização facebook style.


postado em 7 de junho de 2014, categoria crônicas : , , , , , ,

tournier e o outrem

em sexta-feira ou os limbos do pacífico, michel tournier escreve (rio de janeiro: bertrand brasil, 1991, p. 31):

descobriu assim que outrem é para nós um poderoso fator de distração, não apenas porque nos perturba constantemente e nos arranca ao pensamento atual, mas ainda porque a simples possibilidade do seu aparecimento lança um vago luar sobre um universo de objetos situados à margem da nossa atenção mas capaz a todo o momento de se lhe tornar o centro. esta presença marginal e como que fantasmal das coisas com que, de imediato, não se preocupava apagara-se aos poucos no espírito de robinson. encontrava-se doravante rodeado de objetos submetidos à lei sumária do tudo ou nada (…)

a arte, certas práticas: como essa dissolução da virtualidade não é individualista, mas sim individual, sem outro – devir.


postado em 26 de agosto de 2013, categoria comentários : , , , , ,