adornianos e deleuzianos

a uns anos atrás a diatribe é impossível ser deleuziano circulava na minha bolha. o argumento era: ser um especialista, um entendedor de deleuze, era ser um acadêmico – era explicar deleuze, ou ainda pior: era hipostasiar suas noções e fixá-las como “é assim que se aborda algo”; nada mais a contra-gosto do autor, a bradar pela criação de conceitos e pela “cópula forçada por trás”. de modo que, ao menos no meu entendimento, a partir disso, os dois deleuzianos verdadeiros que conhecia eram nick land e manuel delanda, seguindo a regra fácil do “possivelmente isso irritaria ao próprio autor”. mas, como era de se esperar, deleuze não era o único filósofo de posto renomado a lutar contra os operários da filosofia.

pois adorno, em suas admoestações contra o pensamento da origem e os estilos que dão suporte à apresentações passo a passo, acaba por também se colocar contra aqueles que apresentam seus conceitos na forma de definições e explicações, segundo uma didática das partes. seria antes necessário, para manter-se com o autor, escrever ensaios nos quais os conceitos aparecem em constelações e cujas ideias são atualizações que tanto recolocam preocupações e termos conhecidos como avançam pontos, mantendo-os entretanto, igualmente perto do centro do discurso. nesse sentido, nada mais vão que um dicionário a dizer o que seria a indústria cultural, a regressão da escuta etc.

talvez seja útil então distinguir três aspectos, quanto a um epigonismo: conteúdo, forma e espírito. aqueles que tomam apenas o primeiro aspecto são os estudiosos; um seguidor que toma os dois primeiros mas não o terceiro é um imitador; aquele que toma os três aspectos é um verdadeiro discípulo, contanto que exista um abandono (parcial) do primeiro, mas no caso deleuze, a predominância do terceiro poderia deslocar a necessidade do segundo.

 


postado em 28 de março de 2018, categoria comentários : , , , , , , ,

e muitos outros

se me tivessem dito que seria uma publicação física e custosa, com uma capa de tipologia romântica, eu teria só dito, ok, eu escrevi, mas não obrigado, posso ficar de fora. mas querendo logo compartilhar o escrito, e adicionar algum ponto em algum lugar para alguma coisa ainda informada, é verdade que perguntei algumas vezes, quando sai, é nessa fornada que o meu estará etc, e estranhei muito quando me pediam dinheiro. mas minhas perguntas flutuavam no ar, e como eu não sairia no terceiro, queria saber, mas e no primeiro e no segundo? ah não, mas é claro que meu artigo não está diretamente ligado ao tema (como estaria, sou “artista contemporâneo”), e sim, há problemas de continuidade. entretanto, que custa ter me dito “fazemos assim, tem essa ideia etc”, não, mais fácil é me chamar de grosseiro (e não adianta fazer cara feia porque eu, além desse texto bocó, não vou guardar rancor algum). entretanto, queria alertar que, se em 8 meses não soube se estava ou não, “os volumes contam com textos de: jeanne-marie gagnebin, rodrigo duarte, christian bauer, virginia figueiredo, pedro sussekind, taisa palhares, luciano gatti, martha d’angello e muitos outros” tampouco resolve a questão.


postado em 13 de junho de 2016, categoria comentários : , , ,

machismo acadêmico

no livro de divulgação filosófica-científica “the ego tunnel: the science of the mind and the myth of the self” (basic books, 2009, p. 37-8) thomas metzinger escreve (tradução minha):

É quase impossível experienciar como uma gestalt temporal unificada um motivo musical, um trecho de poesia rítmica, ou um pensamento complexo que dure mais do que três segundos. Quando eu estudava filosofia em Frankfurt, professores tipicamente não improvisavam durante as palestras; ao invés disso, eles liam de um manuscrito por 90 minutos, disparando rodadas de sentenças excessivamente longas e aninhadas, uma após a outra, na direção de seus estudantes. Eu suspeito que essas palestras de modo algum visavam efetuar uma comunicação bem sucedida (embora elas fossem frequentemente sobre isso), mas sim que eram um tipo de machismo intelectual. (“eu vou demonstrar a inferioridade da sua inteligência jorrando em você frases fantasticamente complexas e aparentemente intermináveis. Elas vão fazer seu buffer de curto-prazo colapsar, por você não poder mais integrá-las em um único gestalt temporal. Você não entenderá nada, e você terá de admitir que seu túnel é menor que o meu!”)

Eu suponho que muitos dos meus leitores tenham encontrado esse tipo de comportamento. É uma estratégia psicológica que herdamos dos nossos ancestrais primatas, uma forma levemente mais sutil de comportamento exibicionista que se incorporou na academia. O que permite esse tipo novo de machismo é a capacidade limitada da janela movente do Agora.

obs: quando metzinger fala de tunel, está se referindo ao modelo que ele tem da consciência. quando fala de “moving window of Now”, fala da capacidade de integração gestaltica da consciência, segundo seu modelo e experimentos da neurociência e psicologia.


postado em 10 de junho de 2016, categoria excertos : , , , ,

o pensador nômade

existe um problema em textos sobre deleuze. é que deleuze gosta de separar polos e quase sempre acaba por valorizar um lado em detrimento do outro – nômades contra sedentários, por exemplo. existe um aristocracismo grande aí. e quando se é tomado de paixão por deleuze, pelo seu pensamento, como é o caso do livro de regina schöpke (por uma filosofia da diferença: gilles deleuze, o pensador nômade, edusp, 2004), mesmo assim ocorre que, ao explicar, ao clarificar deleuze, não se está de fato criando conceitos, rasgando o caos, fazendo máquinas de guerra. é o estado – a academia, criando especialistas em deleuze – deleuzianos – todos eles do lado dos operários da filosofia, reforçando a canonização desse enorme pensador, trabalhando para a territorialização do seu pensamento, para uma maior significação de seus conceitos.

não que isso seja ruim. qual o problema, afinal, de deleuze ser o hegel da segunda metade do XX?

se deleuze, seus textos, são uma força de fora a impulsionar o pensamento, uma pequena máquina a incitar paixões, nem por isso abordagens explicativas podem isentar-se da acusação que tão bem explicitam. porque se fosse diferente, o título do livro específico citado seria “por filosofias da diferença: gilles deleuze, um pensador nômade”.


postado em 14 de junho de 2015, categoria resenhas : , , , , , , , , , ,

círculos ceifados, o terceiro homem

o livro de rodolfo caesar sobre sua música homônima {círculos ceifados, 7 letras, 2008} sofre justamente de academicismo: está a todo tempo defendendo-se, buscando aliados, justificando suas escolhas – como se houvesse um modo acadêmico sendo transgredido; como se o texto precisasse ser resguardado. mas nesse movimento, justamente esse modo é reforçado e recolocado a todo tempo. não que ele pretenda ser diferente, mas ouvindo numa ocasião acadêmica, muitos anos atrás (2004? ou ainda antes), a palestra equivalente, tinha a impressão viva de estar em presença do contrário – de uma rota para fora da universidade, estando dentro. hoje, fora, mesmo que goste da música e do livro, pesa-me o tom autoirônico, quiçá cínico.

o texto, portanto, deixa claro: não deve ter uma força que possa ser equivalente à da música; sua fabulação está entre aspas, como “fabulação”. não é como the third man, de erik bünger, palestra-vídeo que eu fiquei de traduzir para o português mas não o fiz.


postado em 27 de agosto de 2014, categoria livros, resenhas : , , , , ,

duas angústias da criação

a angústia que eu sinto quando componho uma nova obra musical é diferente da que sinto quando escrevo um texto acadêmico. a primeira é uma espécie de pânico do tipo como?. a segunda é uma agitação que pergunta por que

nos piores momentos da primeira, sinto-me incapaz. nos piores momentos da segunda, sou um frouxo.

mesmo agora a pouco, tive de retirar da minha dissertação uma frase similar a: “a percepção a partir da ideia de uma ideia que permeia várias de suas aparições”. 


postado em 29 de julho de 2012, categoria Uncategorized : , , , , , , , ,

o velho argumento de valinhos

ao marcar congressos sempre escolher uma cidade pouco atrativa: sem praia, sem festas, sem monumentos e museus, mas especialmente: sem praia.

[via josé maria silveira]


postado em 26 de julho de 2012, categoria Uncategorized : , , ,