deserto-deleuze

excertos retirados de “deleuze, os movimentos aberrantes”, de david lapoujade (trad. laymert garcia dos santos. n-1 edições, 2015). toda uma cyclonopedia e uma criatividade leprosa, também desse entendimento derivam. preparando a xerodrome.

[294] Desterritorializar não quer dizer deixar a terra ocupada pelos homens, mas, ao contrário, arrancar dos homens a terra, das percepções e das afecções humanas como tantas territorialidades, e devolvê-la ao seu movimento e à sua imobilidade próprios – abri-la ao cosmos. Num outro nível, não é esse o próprio sentido da máquina de guerra nômade: destruir os Estados, arrancar a terra dos Estados que querem englobá-la para a devolver a si mesma? Tal movimento de desterritorialização despovoa a [295] terra, esvazia-a dos homens que a ocupam e a estriam. Mas ao mesmo tempo que a terra se esvazia, ela se repovoa de outro modo que não com homens, com tudo o que há de não humano no homem e fora do homem, as inumeráveis populações minoritárias de direito, as massas moleculares que suscitam os devires da desterritorialização absoluta. Não é que se leva sua terra consigo, longe do mundo dos homens. Pelo contrário, só chegamos ao deserto – entre os homens – se nos desfizermos de nossa própria humanidade, se nos arrancarmos de nós mesmos seguindo os vetores de desterritorialização da nova terra. Esse é o próprio sentido do nomadismo imóvel invocado por Deleuze e Guattari, o salto demoníaco, quando a visão se faz, enfim, transvisão.[a dissipação ou o apagamento do objeto em benefício de “cristais”, de entidades cujos aspectos subjetivos e objetivos se tornam indiscerníveis.]

[298] A primeira operação consiste, portanto, em desertificar o mundo para atingir o plano de imanência, em remontar dos corpos às Ideias, da estética à dialética. É preciso atingir a equivalência que atravessa toda a obra de Deleuze: deserto = corpo sem orgãos = plano de imanência = caosmos = Ideia = matéria = luz em si. Mas essa imagem é tudo menos fixa, ela é como que agitada de dentro por diferenças de potencial, já pronta a se dissipar. Nada ocorre ainda, mas pressente-se que algo vai acontecer. É o tempo do deserto, um tempo puro [299] que não passa, como “um acontecimento que seria espera de acontecimento”. O deserto se confunde com um campo de potencialidades; é um céu tempestuoso carregado de energia, uma espécie de “tempestade abstrata” sacudida pelos ventos. Vem, inevitavelmente, o relâmpago do “fiat“, o acontecimento, o encontro, o momento em que tudo enfim explode, conforme as diferenças de potencial. Como sempre em Deleuze: cada coisa chega do fora. Heterogênese. E eis que a imagem se transforma inteiramente, sai de seu quadro, passa em outra coisa, embora permaneça nela mesma.

[304] Vê-se o que significa de direito o deserto. Ele procede de uma rigorosa redução na qual o aspecto crítico consiste em esvaziar a terra dos homens, a despovoá-la, a “curetar” o inconsciente de seu triângulo familiar humano, a limpar a teia de todos os clichês que a atravancam, a esvaziar a matéria dos corpos organizados, a esvaziar a linguagem das palavras articuladas para “levar lentamente, progressivamente, a língua para o deserto”. Tal trabalho é incessante, de tanto que somos invadidos pelos clichês, de tanto que nós mesmos secretamos transcendências que nos corrigem, como pilares e torres que estriam o horizonte. Como no artigo de juventude, “Causas e razões das ilhas desertas”, é preciso tudo destruir para recomeçar de outro modo, sem fundação; é preciso tudo recomeçar no deserto, a partir do deserto, tudo repovoar. Desta vez, essa é a tarefa positiva, a máquina de guerra eterna.


postado em 30 de abril de 2016, categoria excertos : , , , , , , ,