notícias abril de 2017

1. resolvo tomar a vacina anti-tetânica, afinal vou tocar na abertura da exposição da carolina botura (sexta).

2. chego a conclusão de que meu ideal kantiano-deleuziano de viajar sem sair do lugar me atrapalha efetivamente a viajar saindo do lugar. (programa mais viagens, menos “viagens”).

3. aprendi vendo vídeos da alaska (obrigado thays) que a correta tradução de cuceta para o inglês é “boogina”.


postado em 3 de abril de 2017, categoria comentários : , , , , , , ,

ciranda do globo

lançaram um jornal do globo (falso) no qual o editorial reclama de um suposto jornal falso do globo (inexistente), expondo assim toda a ideologia do verdadeiro globo (não publicado).


postado em 2 de abril de 2017, categoria comentários, crônicas : , , , ,

caixas

esses dias estava me perguntando o porquê de até hoje a metáfora da caixa ser tão utilizada, vide proof that some infinities are bigger than others. então é claro, se vc consulta russell, um número é qualquer coisa que é o número de uma classe, que é a classe de todas as classes que são similares a ele – o que é, aliais, um jeito esteticamente detestável de definir números!

então se você tem classes, quer dizer, se está pensando em conjuntos, e enfia todas essas classes dentro de uma maior, essa classe maior ainda tem um dentro e um fora. assim, temos a caixa como a forma p ~p. e é claro que não há como colocar um fora (caixa fechada) dentro de um dentro (caixa aberta), se esse fora for a parte não-dentro desse dentro-fora.

mas e se números forem pedras, e as colocarmos numa caixa, que não é uma pedra? banal, dirão: é como dizer, você coloca todas no tudo. e se tivermos uma bolsa, que ao envolver outras bolsas, redobra-se, e torna a torção a parte interior enquanto mostra seu interior como fora? e é aqui que os matemáticos vão me mandar estudar, eu sei.


postado em 31 de março de 2017, categoria comentários : , , , , , , , ,

editais #1

1. quando, digamos, em um edital para uma residência de um mês, com bolsa de R$1500, 120 artistas se inscrevem e há somente 3 vagas, dizemos que há 40 candidatos por vaga. mas essa linguagem é enganosa, pois não há turmas (sorteadas ou selecionadas). de modo que cada um deles concorre contra pelo menos 117 outros.

2. se houver alguma preocupação em não montar algo sacana no mau sentido (dizem os colegas: “fdp”), então a chamada será fácil, pela internet, pedindo pouco material, descrições breves, e evitando o sadismo de pedir documentos antes da etapa de seleção. em 3 horinhas, em um bom dia, vc elabora, preenche e manda (“nossa, que rápido”). agora, certo, imaginemos que esse curto tempo é encarado individualmente como investimento. mas pensemos o seguinte: 120 x 3 = 360 horas de trabalho (que é o exato equivalente de tempo de trabalho se cada selecionado trabalhar 5 horas por dia, 6 dias na semana, durante quatro semanas).


postado em 14 de março de 2017, categoria comentários : , , , ,

o cavalo hans

diz-se do cavalo hans: não é que sabia matemática, apenas lia as mentes das pessoas; de modo que, se tivesse de responder a ignorantes quanto era 91 dividido por 7, dificilmente bateria a pata 13 vezes. mas se o desafiador fosse sábio, sim. pois a mente era lida no corpo, antes mesmo de poder ser acessada na consciência. e isso era “verdadeiramente racional” – as patadas o demonstraram. assim, sobre a intuição:

se o corpo fala, que diga o cavalo.


postado em 11 de março de 2017, categoria aforismos, comentários : , , , , , ,

não-bloco

ao contrário do que teorizei em 2013, o não-bloco, agora que pude observá-lo caminhando durante algumas horas no domingo, do centro cultural são paulo até a paulista, descendo até o centro e virando para a república, apresenta-se como uma solução tipicamente paulista para as aglomerações carnavalescas. há sempre uma expectativa, mas em nenhum ponto do trajeto uma realização: pessoas semi-embriagas caminhando em direção a “mais caminhadas”, de uma felicidade contida, do deslocar-se, às vezes quase dançando – pequenos fragmentos de canto e coreografia; um clima de possibilidades (tensão de briga, olhares ansiosos por azaração), mas ao fim, conscientes da sensação de que há um objetivo virtual (o bloco), que é mero pretexto para o atual (o não-bloco), e que na verdade, esse último, que seria condição de existência para o primeiro, encontra-se aqui estável, invertendo a relação.

ânsia de poder como desaparecimento? segue uma pequena lista de momentos divertidos:

  1. um senhor de 70 anos de idade vestindo uma camiseta larga branca, com bolinhas vermelhas, toca mp3 pendurado no pescoço, fazendo uma dança ridícula, mas com um balde ao lado, para que os transeuntes depositassem dinheiro.
  2. um senhor de 60 anos de idade parado em uma escadaria, impassível, com óculos escuros e terno, segurando a coleira de seu cachorrinho de pelúcia (mas vejam, ela rompeu-se, a qualquer momento o dog pode escapar (?!)).
  3. na frente do novo shopping (cidade?) plantaram alguns pau ferro, em buracos minúsculos. os paisagistas (?) sabem que essa árvore cresce bastante e por vezes cai, não? (imaginei isso acontecendo)
  4. uma jovem de 20 anos de idade com a boca muito aberta e a língua inteiramente para fora, em pose pornográfica que no momento parecia ter sido realizada para tentar irritar dois rapazes hipócrito-libertinos, que se afastaram em seguida.
  5. uma tentativa de formação de bloco, ao som de enter sandman, próximo ao anhangabaú, com uma adesão distanciada e não coordenada (aquele grupo estaria tentando dançar axé?).

postado em 27 de fevereiro de 2017, categoria comentários, crônicas : , , , , ,

pós-verdade

esse conceito, que soa como pseudo-pós-mordenismo – fake pos-mo – só pode querer indicar que hoje, quando temos mais acesso a fontes e meios de verificação, somos pós-enganados; então, antigamente, éramos verdadeiramente enganados.

enquanto acreditávamos que fatos e decisões coincidiam, olhávamos para o fato errado (a verdade), ao invés de olhar para o fato que nos seria supostamente interessante olhar (a enganação). de modo que, ao pesquisar por resumos rápidos sobre técnicas de manipulação e retórica, entendemos melhor como funciona a opinião pública. a dificuldade é que, dito isso, nada muda.

 


postado em 19 de fevereiro de 2017, categoria comentários : , , , , , , ,

Protegido: ferdinando

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postado em 27 de janeiro de 2017, categoria comentários : , , , , , , , , ,

som em 3 contos de terror

1. em o coração delator, de edgard allan poe, o assassino alucina batidas abafadas do coração do morto, ao receber uma visita de policiais, que não suspeitam de nada. mas elas ficam cada vez mais intensas, obrigando o personagem a falar cada vez mais alto.

2. a música de erich zann, tal como relatada por h.p. lovecraft, tem seu apelo: de uma dança húngara, histérica, passando por uma nota calma e zombeteira, finalmente se estabelece: zunidos e uivos (dizem que é um violoncelo e não uma viola), técnicas extendidas, imersão nas trevas e mescla com os sons de vento, batidas de janelas, estilhaços de vidro e finalmente, do grito de horror do único espectador.

3. em a música da lua (the music of the moon), thomas ligotti fala, de sujeitos insones: “escutar sussurros sinistros em uma das nossas ruelas estreitas, e os perseguir noite adentro sem poder alcançá-los, mas sem que eles diminuam nem mesmo um pouco – isso poderia aliviar os efeitos desgastantes de uma horrível vigília”.


postado em 23 de janeiro de 2017, categoria comentários : , , , , , , , ,

reificação e objeto sonoro

há algo de muito estranho em criticar a noção de objeto sonoro escolhendo não levar em conta o projeto musical, no sentido modernista, que acompanha a noção. porque para defender que este leva a uma reificação do som, fadada a fazer o som levantar uma voz que diz “eu sou um objeto”, é preciso omitir completamente qualquer menção ao “objeto musical”. a autonomização do som não opera tanto para formar uma coisa em-si, como para criar a possibilidade de uma nova musicalidade.

Form is the lever that propels the sonorous toward recognition, hence toward permanence, and finally toward audibility. This process of the individuation of the sonorous, this becoming-object of sound unleashed by an intention, by a listening, is none other than the process of reification. It sets out from a misunderstanding, a misguided dualism between sonorous form and the signifying indices that emanate from it, when sound itself is nothing but an emanation in which the sensible and the meaningful are already commingled.

{françois j. bonnet. the order of sounds: a sonorous archipelago. trad. robin mackay. urbanomic, 2016, p. 121}


postado em 19 de janeiro de 2017, categoria comentários, música : , , , , ,