sem controle emocional

no livro snow crash, de neal stephenson, raven tem tatuado na testa: SEM CONTROLE EMOCIONAL. é um mundo de enclaves – as regiões se fragmentam: as passagens e interconexões são todas perigosas – espécie de estado natural capitalista.

ele tem tatuado na testa porque não há um sistema prisional-legal unificado, mas é suficientemente perigoso para que alguns queiram deixar claro a outros seu desequilíbrio. raven também recebe o status de “homem-nação”, porque anda por aí com uma bomba atômica na moto.

no livro, nada impediria que uma dupla de psicopatas saísse torturando e tatuando pessoas, com justificativas de um moralismo abjeto. mas também, nada impediu o caso em são bernardo. em ambos os casos, há retaliação. TORTURADOR E TATUADOR COMPULSIVO. “seriously, don’t mess with him”.


postado em 11 de junho de 2017, categoria comentários : , , , , ,

13%

é muito comum apresentarmos uma pessoa a outra falando sobre o que ela faz, ou perguntando o que ela faz. fica aí implícito “o mundo do trabalho”. quando era um jovem estudante lembro de ficar perplexo ao descobrir (ó ingenuidade) que o que uma pessoa fazia/estudava/trabalhava muitas vezes não era o mesmo que o que ela gostava. havia um certo desdém nas respostas. não havia motivação suficiente para que elas discorressem sobre assuntos relacionados e não tinham grandes planos ou desejos relacionados com as respostas.

em 2013 foi estimado que apenas uma em cada oito pessoas poderiam corresponder às minhas expectativas juvenis [*]. por isso, talvez seja melhor introduzir gostos e desejos nas apresentações pessoais,  mesmo que isso eventualmente soe brega. “o que você gosta?” “ultimamente, o que tem desejado?” “o que tem deixado você feliz?” “pelo que você se interessa?” (dando exemplos de si próprio para quebrar o gelo).


postado em 28 de maio de 2017, categoria comentários : , , , , ,

repre$$ão

nas contenções ao populacho, que tal adotarmos uma atitude liberal e armarmos a polícia militar com bombas de dinheiro? uma bomba de R$800 de cédulas de R$2 espalha rapidamente 400 notas em uma área de 100m². uma bomba do tipo disputa pode ser lançada à mão e ao cair abre como um kinder ovo, deixando rolar quatro notas de R$ 100 nos quatro pontos cardeais. um disparo de escopeta tem a vantagem de poder até mesmo cegar um vândalo ou jornalista desprecavido enquanto espalha moedas de R$1 pelo chão das principais avenidas. um morteiro de mil moedas de R$0,5  é sempre bonito de se ver, o metal mal reluzindo enquanto ricocheteia. as minas direcionáveis em notas crescentes, acionadas em retaguarda: por ela, como não peticionar junto a avaaz e pp que a casa da moeda confeccione espécies intermediárias e superiores, com a possibilidade da substituição da sequência 1, 2, 2+1, 2+2, 5, etc, 20, 20+10, …, 100, 100+10, 100+20, 100+100 pela mais pura 1, 2, 3, 4, 5…, 20, 30, …, 100, 110, 120, …, 200. por uma nota de duzentos, que manifestante não caminharia rumo às forças tarefas? e o mito de que o encontro seria coroado com uma surra de verdinhas? na operação beija-flor-de-peito-azul viu-se um grande canhão de vento cuspir inumeráveis cédulas, afastando tanto a aglomeração quanto o mito de que valor real e de face difeririam. pois é preciso colocar ordem na casa e nas coisas.


postado em 19 de maio de 2017, categoria comentários, proposições : , , , , , , , , , , ,

o tempo da composição

passei 8 anos construindo uma música. ficou melhor, mais impressionante, mais satisfatória que outras? não. é verdade que é possível que o tempo transpareça, quem sabe. mas ficar dois dias ou mais de 500 horas fazendo algo pode não estar correlacionado com quesitos de qualidade, porque esses quesitos são estabelecidos em relação à consistência própria do construído. o período de trabalho e a perseverança estabelecem paralelos, não muito mais que isso. uma vez, quando estudante, demorei 13 meses para fazer uma música eletroacústica que, após primeira audição, guardei para nunca mais tocar. então a questão seria muito mais se vale a pena fazer o tipo de música que demora meses ou anos para ser feita, sendo sua qualidade, tal como em outros tipos, incerta.


postado em 14 de maio de 2017, categoria comentários : , , , , ,

greve geral e arte

nos perguntamos se o artista está incluido, mesmo que apenas simbolicamente, na esfera “trabalhador”, ou se, desesperançoso e nihilista ou indiferente e elitista, ele paira ao lado ou acima desta.

supomos que certas atividades como:

  • ver espetáculos e demonstrações
  • participar de oficinas
  • ensaiar
  • preparar e planejar obras e performances
  • corrigir ações e materiais
  • fazer reuniões de coordenação

devam ser deixadas de lado nesse dia de greve geral. ou não são trabalho? na performance de um ano de 1985–1986 de tehching hsieh – “no art piece”, o trabalho feito consistia em capitalizar a difícil arte de não-trabalhar durante um ano. ao contrário dessa ação individual, os chamados de greve na arte, por the workers coalition, gustav metzker, stewart home e o gupo práxis etc apelavam especificamente à classe, mas aproximando-a de preocupações e táticas de outros setores do mundo produtivo.

o que se pede no dia 28 de abril é, entretanto, muito mais modesto: que cada um avalie sua diferença enquanto artista como plenamente irrelevante.


postado em 25 de abril de 2017, categoria comentários, proposições : , , , , , , , , ,

arte contra a cultura

muitas pessoas adotam posições amenas em que, providencialmente, se omitem enquanto participantes. a observação mais perspicaz que conheço sobre isso é a anedota do congestionamento.

um sujeito, preso em um congestionamento, liga para seu colega de trabalho, dizendo: “vou chegar atrasado. é que estou aqui ajudando a congestionar a via com meu carro.”

no meio artístico é comum que se fale e faça muita arte contra a cultura, querendo dizer: contra a cultura dos outros, não a minha. de modo que o artista nunca fica perplexo em relação ao que fez, ou angustiado; seus amigos sempre podem ir aos seus shows e exposições mantendo um sorriso leve no rosto e curtir. há quem fale de um entretenimento “superior”. ninguém nunca vai comentar que você “forçou a amizade”.


postado em 21 de abril de 2017, categoria aforismos, comentários : , , , , ,

a vingança de wendy

eu gostaria de algum dia reescrever o peter pan, de j.m. barrie, tal como michel tournier reescreveu o robison crusoe. e isso envolveria também estabelecer uma verticalização do tempo e uma conquista do intensivo. ou seja: transformar a grande vilã da história, wendy, na heroína a traçar sua jornada. então, nada de ser a figura da vitória da sociedade, tal como a ordenação da semana em dias de trabalho e dias de folga, no livro de defoe.

– oh, moça wendy, seja nossa mãe!
– não.


postado em 13 de abril de 2017, categoria comentários : , , , , , , , ,

notícias abril de 2017

1. resolvo tomar a vacina anti-tetânica, afinal vou tocar na abertura da exposição da carolina botura (sexta).

2. chego a conclusão de que meu ideal kantiano-deleuziano de viajar sem sair do lugar me atrapalha efetivamente a viajar saindo do lugar. (programa mais viagens, menos “viagens”).

3. aprendi vendo vídeos da alaska (obrigado thays) que a correta tradução de cuceta para o inglês é “boogina”.


postado em 3 de abril de 2017, categoria comentários : , , , , , , ,

ciranda do globo

lançaram um jornal do globo (falso) no qual o editorial reclama de um suposto jornal falso do globo (inexistente), expondo assim toda a ideologia do verdadeiro globo (não publicado).


postado em 2 de abril de 2017, categoria comentários, crônicas : , , , ,

caixas

esses dias estava me perguntando o porquê de até hoje a metáfora da caixa ser tão utilizada, vide proof that some infinities are bigger than others. então é claro, se vc consulta russell, um número é qualquer coisa que é o número de uma classe, que é a classe de todas as classes que são similares a ele – o que é, aliais, um jeito esteticamente detestável de definir números!

então se você tem classes, quer dizer, se está pensando em conjuntos, e enfia todas essas classes dentro de uma maior, essa classe maior ainda tem um dentro e um fora. assim, temos a caixa como a forma p ~p. e é claro que não há como colocar um fora (caixa fechada) dentro de um dentro (caixa aberta), se esse fora for a parte não-dentro desse dentro-fora.

mas e se números forem pedras, e as colocarmos numa caixa, que não é uma pedra? banal, dirão: é como dizer, você coloca todas no tudo. e se tivermos uma bolsa, que ao envolver outras bolsas, redobra-se, e torna a torção a parte interior enquanto mostra seu interior como fora? e é aqui que os matemáticos vão me mandar estudar, eu sei.


postado em 31 de março de 2017, categoria comentários : , , , , , , , ,