pedagogia #2

como não nos percebemos aprendendo e como para nós saber é sempre uma aposta a se verificar, estudar é conviver com as trevas, é se alimentar das trevas, é acreditar na incerteza da escuridão.

ao caminhar pelas ruelas mal iluminadas da cidade do conhecimento entrevemos aqui e ali janelas em que lâmpadas estão acesas e os habitantes no conforto. mas preferimos o sereno. alimentamos, com a esperança da alegria, a angústia do tatear de quem se recompõe, após um tropeço.


postado em 16 de outubro de 2016, categoria aforismos : , , , , ,

existencialismo japonês #1

1. 幻想
profundidade é o nome da ilusão originada no apego

2. 漆黒の闇
o cósmico é grande indiferença e escuridão
[アザトース]

3. 有意義
a noite animal que ronda o dia não deve tapar o sol
(importância da explicitação)

4. 幸せと興奮
a felicidade se compra com uma garrafa de vinho, já a tristeza não
[の反対は退屈なのです]


postado em 22 de setembro de 2016, categoria aforismos : , , , , , , ,

so long and thanks for all the fish

o fato do ser humano dominar a linguagem e ter erigido um conjunto técnico vasto é tanto prova de sua inteligência superior quanto de sua burrice suprema. douglas adams expressou essa antinomia magistralmente em sua obra prima o guia dos mochileiros da galáxia, com a máxima: “adeus e obrigado pelos peixes“.


postado em 29 de julho de 2016, categoria aforismos, comentários : , , , ,

meio de junho de 2016

1. faz uns 20 anos que torço contra a seleção brasileira. faz parte do que considero “patriotismo”. mas já desde 2006 não vejo futebol, o que é como não gostar de chocolate, não ter celular, evitar dirigir e nunca ter fumado maconha: “um outro mundo é possível”.

2. a vantagem da literatura é poder transformar desentendimentos em textos, ficar pensando se publica ou não, por não querer ampliar a possibilidade de piorar a situação, decidir publicar e dependendo do resultado, responder: mas é tão bom como crônica! e se isso causar irritação, repetir um mantra do tipo “eu não sou cordial, eu não sou cordial”, na esperança de que exista um espaço racional de expressão da irritação no mundo.

3. na internet, falam de catedral. como vivo esbarrando em mundos pequenos, pequeninos, vou mencionar aqui a possibilidade de uma cena virar uma panelinha; já de um lado mais institucional, paróquias.

4. mais um mantra: “o homem que está tranquilo com sua solidão é rei do mundo.”

5. alguém perguntou: “o que é melhor que sexo?” ora, quando estou com fome, comer; quando estou com sono, dormir; quando estou concentrado, trabalhar; quando estou artístico, fazer música; quando estou sóbrio, ler.

6. num cartão não muito grande, há a instrução: “escreva aqui todas as palavras que você sabe.”

7. na verdade, anos e anos reclamando de concertos de peças de 8 minutos, percebo que as mostras coletivas de artes plásticas são exatamente o mesmo. como é bom ver uma galeria reservada a apenas uma pessoa/grupo artístico – como a coisa ganha sentido! é como ouvir um álbum inteiro.

8. esses dias lembrei, sem motivo, da frase do silverchair, música slave: “the only book i wrote is how to loose”. e comparei com a do bonde da stronda: “manual da stronda é meu livro de berço, única coisa que eu leio e nunca me esqueço”. na adolescência, marginais vs playboys. gostaria de pensar que o “e” do “e nunca me esqueço” não atrapalha a exclusividade do “único livro que eles lêem”.

9. em 1983, ano em que eu nascia, cronenberg lançava videodrome. outros filmes que eu gosto muito em que a tv figura de modo bizarro são funky forest, do ishii, e ringu, de nakata. nunca li simulacros e simulação de jean baudrillard. uma vez eu e mário tivemos de carregar algumas tvs de tubo para uma performance de azul no centro cultural da juventude, em são paulo. uma delas pesava quase 60 kilos.


postado em 19 de junho de 2016, categoria aforismos, comentários : , , , , , , , , , , , ,

política

se a filosofia é a arte conceitual cujo material é o pensamento (rosi braidotti falando sobre françois laruelle), então a política é a arte conceitual cujo material é o poder. nisso, a essência do poder continua sendo a estética, de toda forma (o que não tem, ao que parece, relação direta nenhuma nem com o belo nem com o bom).


postado em 7 de junho de 2016, categoria aforismos : , , , , , , , ,

manter a porta aberta

quando alguém diz que não sabe nada é evidente que isso é, em termos literais, falso. é muito difícil não saber nada. verdadeiramente não saber nada exige muito esforço. sempre se sabe alguma coisa. e dessa coisa pode-se puxar outra, e depois outra e então triangular com quase qualquer outra outra coisa e assim por diante. de modo que dizer eu não sei nada, por ser demasiado duvidoso, tem apenas uma função, que é a de fechar a porta para aquele conhecimento/área de atuação (e veja, imagino uma porta cuja maçaneta do lado de cá não gira). mas quando eu discuto isso com alunos em geral, sempre pergunto: não podemos deixar a porta entreaberta, ou só encostada, de modo que, se algum dia quisermos adentrar a sala, com um puxão ou um chute na lateral podemos já passar pro outro lado?


postado em 24 de maio de 2016, categoria aforismos : , ,

deus e seus referentes

o problema da palavra deus é que, devido às diversas histórias de multiplicidade desta (por exemplo: antes haviam inúmeros deuses; zeus foi se tornando onipotente; enfim tornou-se onipresente/abstrato – ou então, há um único deus e verdadeiro deus, é “o senhor”, é “allah”, é “jeová”), nunca-se sabe o que a pessoa que a pronuncia tem em mente. ela pode ter em mente “diabo”, por exemplo, ou “monstro do espaguete voador”. que diabo possa ser um deus, o satanismo o prova. quanto aos anglo-saxões, me pergunto o quanto não acabam tendo em mente “cachorro”, por um engano de grafia mental. msm: mental-spelling-mistake. os deuses do egito que o digam.

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postado em 14 de maio de 2016, categoria aforismos, comentários : , , , , , , , , , , , ,

o cínico

é tal que pode desistir de um jogo ou argumentação e ir para outro a hora que lhe for apropriado, sem empecilho algum (como não há empatia, o constrangimento do interlocutor não é uma questão). assim, seu discurso não precisa assomar-se como algo coerente. ele só precisa ser ponto a ponto conveniente. tal é a virtude do cínico: a impermeabilidade (as palavras deslizam).


postado em 6 de maio de 2016, categoria aforismos : , ,

ladainha

a escrita é a tecnologia que impede o pensamento de ficar se repetindo de novo e de novo. nesse sentido a ladainha é um monumento à oralidade. que algo dela invada a escrita, como nos parágrafos repetidos e temas recorrentes dos textos de gx jupitter-larsen, nos causa uma estranha sensação de amnésia, obsessão, absurdo e mistério (não deveríamos estar progredindo?). que ela seja reduzida a um loop solitário, como em gertrude stein, é para que, interrompendo a linearidade do pensamento que deveria ir em frente, ao invés de circular, acabe por deslocar e invisibilizar o círculo: veem-se as palavras, ouvem-se os sons.

***

1. já em eugène ionesco, no livro repetido macbett, o método da repetição literal é empregado, nos discursos de ambos os generais macbett e bando.

2. quanto à stein, ao contrário do que alguns teimam em perceber, trata-se de uma maquininha bem ajustada, a substituir o maquinário desengonçado do cotidiano.


postado em 15 de abril de 2016, categoria aforismos, comentários : , , , ,

fogo

colocar fogo nas coisas é sempre algo decepcionante. as pessoas esperam pirotecnia e outros delírios circences e/ou hollywoodianos, mas o fogo é difícil e custoso. isso porque a essência do fogo é a extinção. o fogo quer extinguir-se.

a dádiva é bela e gratificante, mas caprichosa.


postado em 29 de março de 2016, categoria aforismos : , ,