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Kairo: Circuito e Solidão

Em 2001 a internet estava menos embrenhada no cotidiano; era possível pensa-la com distanciamento. Como algo que permite a comunicação através do além dos cabos e da informação, do mediado mas próximo a outro próximo. Bastava nutrir a paranóia do novo para imaginá-la como capaz de aprofundar essa relação, indo do mais interior ao mais interior, mas passando pelo radicalmente exterior. Um interior, que é o profundo da mediação, mas onde o eu vê-se aprisionado nesta, e um além que está aquém, exterior a toda possibilidade de ser meio, que como exterior interior, une todos em uma grande comunicação do ausente.

Ademais, era possível conceber seus circuitos como liberadores de uma força misteriosa que se alastra, uma tecnologia contagiosa, aparecendo como um atrator implacável. Na falta de contato, de pele, da química e um modelo de convivência suficientemente empático, não há cafezinho que garanta conexão humana e resista a essa conexão desconexa, isomorfismo entre aquisição de meios digitais e epidemia propriamente capitalista da depressão.  Quando o comportamento torna-se vicioso e cobrimos nossa cara com sacos de lixo, primeiro nos fechamos solipsisticamente para depois pedir uma ajuda que, não surpreendente, não vem.

O chamado do moden, tão característico e bizarro, rústico e precário como um presságio antigo, de um tempo remoto mas atualizado, é prenúncio de vertigem, portal para um futuro terrível e implacável. A internet se alastra, aparentemente inócua, para logo depois arrastar a cidade inteira em um movimento hesitante mas avassalador de conexão de almas solitárias: fantasmagoria inexorável. A mediação da conexão, aqui, prende-se ao motivo de uma radical desconexão – a comunicação dá-se no partilhar individual de uma fantasmagoria que pode agora manifestar-se como comum a todos – compartilhamento de solidões, comunicação de um mundo da morte, de depressão especificamente contemporânea, catalizado pela conexão mediada.

{回路, Kairo. Dir. Kiyoshi Kurosawa, 2001, not 8.5/10}

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